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O medo e a imaginação

Há algum tempo escrevi aqui sobre o valor e a importância do medo. Semanas atrás me deparei com um vídeo que, assim como o texto do Castello e a conferência do Mia Couto, me fez pensar no assunto. É uma apresentação do TED (sei que estou parecendo o louco do TED, mas é que as coisas lá são muito bacanas mesmo) da escritora Karen Thompson sobre as conexões entre medo e imaginação. Vale investir 11 minutinhos do seu dia nessa palestra, viu?

Como evitar que o mundo pare?

Tenho um sério problema de relacionamento com os carros. Não gosto de dirigir, não gosto do estrago que eles fazem no meio ambiente e não gosto do caos em que eles transformam as grandes cidades. Não bastasse os problemas coletivos que temos que lidar diariamente, como saúde, educação e moradia, as administrações públicas ainda se veem obrigadas a buscar soluções para uma questão que é muito mais individual do que da população como um todo.

Por diversos motivos, as cidades não comportam mais um grande número de carros. Não que eles sejam vilões absolutos, sem qualquer qualidade. O problema está em seu excesso. Não imagino e não defendo uma sociedade sem carros, mas sim uma cidade onde os métodos de transporte que atendam mais gente por vez sejam, de fato, priorizados.

Alternativas não faltam. Investir mais em metrô (desde que sem corrupção, é claro) e corredores de ônibus já se provou bastante eficiente. São Paulo mesmo tem vivido um intenso debate sobre essa questão. O problema é que ainda estamos muito contaminados por uma espécie de rivalidade entre os defensores do carro e dos ônibus.

Por mais importante que seja o transporte público, ele por si só não é a solução para todos os problemas. Em alguns momentos, o uso do carro é importante também. E nessa vertente, temos visto algumas iniciativas de empreendedores que têm contribuído para a melhoria da mobilidade urbana. Além dos aplicativos de táxi, que são um excelente incentivo para deixar o carro na garagem de vez em quando, vejo o compartilhamento de carros como uma excelente solução. A empreendedora americana Robin Chase é um grande símbolo desse caminho. Ela fundou a locadora por hora Zipcar (que inspirou a brasileira Zazcar) e depois aprofundou seu modelo, com a Buzzcar. Quem quiser conhecer um pouquinho mais sobre seu modelo de trabalho, essa palestra dela no TED é muito bacana.

Mas mais importante do que uma ou outra solução é encontrar uma forma de coordenar diversas iniciativas. O problema é muito grande para acreditarmos que haja, de fato, uma resposta única para ele. Quem chama a atenção para esse problema é uma figura improvável. Bill Ford é bisneto de Henry Ford e diretor-geral da empresa fundada por seu bisavô. Coloco meus dois pezinhos atrás quando o assunto são figuras de dentro de uma determinada indústria questionando os valores defendidos por essa mesma indústria. Apesar disso, assistindo a palestra dele no TED, feita em 2011, encontrei alguns aspectos muito bacanas. O ponto central é que o modelo vigente não se sustentará por muito tempo. Com mais e mais carros nas ruas de todo o mundo, não há obra viária que impeça um congestionamento em escala global. Há pouco tempo já vimos essa tendência mostrando a cara na China.

O resultado do crescimento em larga escala do número de carros, como muito bem lembrado por Ford, não é somente o inconveniente de perder algumas horas para ir para o trabalho ou voltar para casa. Isso vai acabar afetando a distribuição de produtos tão fundamentais quanto comida e remédios.

É lógico que desconfio e discordo de Ford em alguns aspectos fundamentais de sua fala. Para ele, por exemplo, a grande sacada será a criação de carros mais inteligentes, conectados a estradas e estacionamentos mais inteligentes. Não vejo por esse lado. Acredito muito mais na força das soluções coletivas, como o compartilhamento de carros e o transporte público, do que no investimento em tecnologia para criar carros mais espertos. Além de mais caro e de ser algo um tanto quanto “futurista”, acredito que esse sistema mais posterga do que resolve a situação. De qualquer forma, acho que as propostas do Bill Ford são importantes para o debate. O vídeo abaixo tem um resumo dessas ideias, feito por ele mesmo no TED em 2011.

P.S.: Depois que publiquei o post me deparei com a notícia de que o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, apontou o aumento da gasolina como uma boa forma de subsidiar o preço da passagem de ônibus. Taí algo que já venho falando há tempos. Além disso, defendo também o aumento do IPTU para estacionamentos e o pedágio urbano na região central. Carro só para quem precisa de fato.

Valeu, pai!

12, agosto, 2013 Gabriel Ferreira 1 comentário

Como sempre, tinha me planejado para escrever no fim de semana, mas acabei deixando de lado. Podia deixar passar e depois dizer que estava, na verdade, fazendo um protesto contra essas datas comerciais. Mas não seria verdade. Mais do que isso, seria uma injustiça. Não agradecer a meu pai pelo homem que ele é e, principalmente, pelo homem que ele fez eu me tornar, seria uma falta de respeito – e desrespeito ao pai é uma coisa que não admito.

Há quem diga que tínhamos que agradecer aos pais todos os dias. Já faço em pensamentos, acreditem. Mas nessas datas o bacana é podermos dizer para o mundo todo aquilo que sentimos em nosso interior – e que as vezes falta tempo, coragem ou oportunidade para externalizar.

Por isso, quero aqui deixar bem claro uma coisa: pai, você não é apenas um exemplo que quero seguir. Você não é apenas alguém que amo muito. Você não é apenas uma pessoa a quem devo todo o respeito. “Apenas” é uma palavra que, definitivamente, não cabe em você. Você é tudo isso e é muito mais. Você é o cara que me faz ter a certeza de que batalhar é a única forma correta de obter resultados. Você é o cara que faz com que eu me dedique a sonhar a grande, a querer ser alguém nessa vida. Você é o cara que me ensinou que a gente tem que nunca perder de vista o objetivo de ser o melhor em tudo o que faz. Você é o cara que me segurou sempre que achei que fosse cair – seja da bicicleta, seja do mundo. Resumindo: você é o cara e ponto.

Até para o que alguns dizem que são os meus defeitos foi você quem me moldou – ou será que eu seria palmeirense e falador se não fosse seu filho? Te agradeço até por isso.

Podemos discordar em muitas coisas, mas foi com você que aprendi o quanto é importante valorizar um bom debate, apresentar e defender um ponto de vista e, mais importante de tudo, ter sua própria opinião, mesmo quando ela é diferente da de todo mundo que está a seu redor.

Obrigado por tudo isso e por todas as outras coisas que não haveria tempo ou espaço para te agradecer. Você é o cara e eu quero um dia chegar lá também!

 

As pequenas frustrações cotidianas – ou a mão que nunca será dada

Outro dia me deparei com uma dessas cenas que só não passam despercebidas por um mero acaso. Estava no ônibus e vi um casal sentado no primeiro par de bancos logo depois da catraca. Deviam ter a minha idade ou até menos. A mão dela aberta sobre a perna dele, como que esperando em vão que ele a pegasse.

Não sei se eram amigos ou namorados, mas aquilo me fez viajar um pouco. Fiquei pensando no quanto ela queria que os dedos dele envolvessem os seus. Será que aquele era um ato e um desejo consciente ou nem ela havia reparado ainda naquilo que eu estava vendo? É difícil saber.

Todo mundo tem alguma expectativa que jamais será alcançada. O tamanho e a intensidade desses sonhos variam muito e às vezes nem podemos nos dar ao luxo de chamá-los de sonhos – de tão simples e inocentes, sequer reparamos nesses desejos e, por isso, não nos sabemos frustrados. Não reparar e não saber, porém, não diminui de maneira alguma o impacto que essas pequenas frustrações cotidianas têm em nossas vidas. Elas são capazes de moldar personalidades, de determinar futuros, de criar medos. E tudo isso no mais absoluto silêncio.

Você certamente tem suas frustrações escondidas. Carrega algo no peito que pesa sem que você saiba. Eu também tenho, mesmo que ainda não conheça exatamente quais são. Pode ser que a frustração da moça que vi no ônibus não seja o amor não correspondido, como eu logo imaginei. Mas ela certamente tem desejos tão simultaneamente próximos e distantes quanto me pareceu a mão de seu companheiro.

Mas qual é o verdadeiro valor dessas frustrações cotidianas e desconhecidas em nossas vidas? O que tem maior peso na formação da personalidade de alguém? A mão que nunca será dada ou o emprego perdido? As palavras que desistiram de existir instantes antes de chegar à garganta ou o fim de um namoro? O desencontro que se deu por apenas alguns segundos ou a saudade de quem já se foi?

É lógico que as grandes decepções e perdas nos levam a tomar grandes decisões. São momentos importantes, que muitas vezes marcam uma ou outra virada em nossas vidas. Mas elas não acontecem em tão grande quantidade para que sejam, por si só, determinantes de nossas personalidades. São os pequenos desencontros – esses sim abundantes – que ajudam a determinar quem realmente somos. Podemos até não reparar – e provavelmente não iremos –, mas são as mãos, os beijos e os abraços nunca dados, as palavras nunca ditas, os encontros nunca concretizados que nos levam a decidir como serão os próximos carinhos, beijo, abraços, palavras e encontros.

Ignorar quais são e o poder dessas pequenas frustrações não é um problema e nem um mal. Muito pelo contrário. É esse desconhecimento que as torna tão poderosas. Como quase tudo na vida, é ao estar livre do peso de sua responsabilidade que nossas frustrações cotidianas se sentem mais livres para agir. Mais do que isso, é por não sabermos do que elas são capazes que nós permitimos que elas ajam. Não saber de sua existência e poder é a melhor forma que temos de não nos boicotar.

O importante, então, é não deixar que essas pequenas frustrações cotidianas se tornem grandes problemas. Fazer com que elas ajam sozinhas, sem necessidade de nossa interferência e, principalmente, sem nos deixar paralisar por elas. Levar essas pequenas frustrações no piloto automático, para que possamos nos dedicar única e exclusivamente às grandes. Pode não ser a fórmula da felicidade – será mesmo que isso existe? Mas que é um bom começo, isso é…

Obituários não devem absolver os pecados

Com certeza você já reparou: sempre que morre algum político ou celebridade, os obituários costumam destacar mais as contribuições daquela pessoa à sociedade do que seus eventuais defeitos. Não importa se o sujeito é o maior corrupto da história do país ou se era um daqueles artistas arrogantes que só se preocupam em destratar empregados e fãs. No final das contas, por mais que até toquem nas questões delicadas, os obituários sempre terminam com uma cara de absolvição de pecados.

Esse modelo sempre me incomodou. E muito. Nunca vi lógica em passar a mão na cabeça de quem sempre fizemos questão de bater. É um problema cultural, eu sei, mas não faz o menor sentido.

Outro dia me senti bastante aliviado ao me deparar com um obituário que seguiu o modelinho que, acredito, todos deveriam adotar – mesmo que não tão exagerado. O jornalista Hunter Thompson nunca foi um grande fã de Richard Nixon. Pelo contrário. Os dois representavam visões de mundo completamente antagônicas. Quando Nixon morreu, em 1994, Thompson foi escolhido pela Roling Stone para escrever o obituário do ex-presidente. O resultado é de uma sinceridade que chega a ser assustadora – bem a cara de Thompson, diga-se de passagem.

Logo de cara ele avisa a que veio:

Richard Nixon se foi e eu fico mais vazio por isso. Ele era uma coisa real – um monstro político saído de Grendel e um inimigo muito perigoso. Ele poderia apertar sua mão e te apunhalar pelas costas ao mesmo tempo. Ele mentiu para seus amigos e traiu a confiança de sua família. Nem mesmo Gerald Ford, o infeliz ex-presidente que perdoou Nixon e o manteve fora da prisão, ficou imune às suas diabólicas consequências. Ford, que acredita firmemente em Céu e Inferno, disse a mais de um de seus famosos companheiros de golfe: “Eu sei que eu vou para o inferno, porque eu perdoei Richard Nixon”.

Esse é apenas o primeiro parágrafo do texto, que vai ficando mais crítico a cada linha até chegar à conclusão de que Nixon será uma marca constante na vida de todos os americanos por muitos e muitos anos. Uma marca constante e negativa, que fique bem claro. Para quem quiser ler a versão completa, o site da The Atlantic (aquele mesmo site que não gosta de pagar o serviço de seus frilas, é bom lembrar) disponibilizou o texto.

Com Sarney internado na UTI, a leitura vem bem a calhar. Ainda outro dia, vi gente criticando um jornalista que lembrou de todo o mal causado pelo ex-presidente e sua turma aos povos do Maranhão e Amapá. Segundo os críticos, o momento é delicado para a família e não é bom ficar retomando esses “detalhes”. Será?

A prova de que ficar parado não adianta

Ainda ontem eu estava aqui falando sobre a importância de deixar de correr em uma esteira ergométrica e ir para a rua, sair do lugar e ver uma nova paisagem a cada momento. Quando escrevi o texto, mal podia imaginar que naquela mesma noite teria um exemplo do quanto é importante realizar os sonhos e não ficar só planejando.

Uma das coisas mais bacanas da minha profissão é a oportunidade de ouvir as histórias das pessoas. E ontem ouvi uma que me deixou encantado. Conversei com uma empreendedora que montou seu negócio aos 19 anos. A empresa tinha tudo para continuar pequena, mas uma combinação de fatores fez com que ela crescesse – e muito. Nenhum desses vários elementos era excesso de dinheiro ou uma larga experiência em administração de empresas. Veja bem, minha entrevistada tinha 19 anos quando foi empreender e seu único emprego havia sido como atendente do McDonald’s. A sócia dela tinha em seu currículo somente trabalhos como empregada doméstica e cabeleireira.

O principal fator que contribuiu para o sucesso da empresa foi a dedicação. Tanto minha entrevistada quanto sua sócia colocaram ali todas as forças. Foram estudar e entender o que podiam fazer para que o negócio se tornasse um sucesso. Minha entrevistada fez faculdade, pós-graduação, MBA e está sempre em busca de cursos no Brasil e no exterior que possam aprimorar suas habilidades. Mais do que isso, ela procura transmitir o que aprende nas aulas para o pessoal que trabalha na empresa e incentiva os funcionários a também não deixarem de estudar.

Nosso bate-papo foi curto, infelizmente, mas foi daqueles em que você sai absurdamente inspirado. Taí uma das grandes graças de ser jornalista.

Para quem pediu, aqui vai o link da matéria que resultou dessa conversa)

Sobre esteiras ergométricas – ou como deixamos de fazer o que realmente vale a pena

Se você já correu em uma daquelas malditas esteiras ergométricas, conhece bem a sensação de fazer um esforço brutal e não sair do lugar. Talvez você já tenha percebido também que é exatamente essa sensação que muitas vezes toma conta da nossa vida. Não é raro estarmos o tempo todo ocupados, mas nunca fazermos nada de fato. Depois de um dia cansativo e estressante, paramos para pensar no que realmente produzimos e aprendemos e somos incapazes de chegar a uma conclusão.

Já ouvi uma série de explicações para isso. Dizem que a culpa é da internet, do jeito mais imediatista que a minha geração vê as coisas ou da globalização, que tornou tudo mais rápido… Não importa. Seja qual for o motivo, é frustrante você não ter tempo para ver seus amigos, para assistir àquele filme bobinho que estreou semana passada no cinema, para ler o livro que você comprou há tanto tempo e ainda não conseguiu abrir ou dar uma simples volta no quarteirão, para respirar um pouco de ar puro e ver que existe vida além das quatro paredes que cercam seu escritório.

De um tempo para cá, resolvi brigar contra essa sensação. Voltar a escrever aqui é parte importante desse projeto, mas também já é consequência dele. Um dos motivos que tinha me afastado um pouco do teclado era a falta de assunto. Por alguma razão que não sei explicar, deixei de ver os meus amigos com a mesma frequência que via antes e nem mesmo tempo para um bate papo pelo Gtalk estava arrumando. Muito trabalho? Talvez. Mas isso não justifica. Tenho, sim, momentos livres, que vinha desperdiçando por aí.

Por mais que a gente trabalhe, sempre temos tempo de dizer pelo menos um oi para quem gostamos. A tecnologia ajuda – e muito – nisso. O problema é que ao invés de usar o segundinho livre entre uma tarefa e outra para mandar uma mensagem para quem amamos, preferimos postar uma bobagem qualquer no Facebook. Assim, temos a impressão de que estamos nos conectando com muito mais gente ao mesmo tempo. Ledo engano. Fazemos, sim, uma conexão superficial, que, na prática, resulta em um quase nada.

É o mesmo que acontece com nossos projetos pessoais. Ao invés de nos dedicarmos àquilo que realmente queremos fazer – ler ou escrever um livro, assistir ou gravar um filme, planejar ou executar uma viagem – nos perdemos em uma série de outras questões de menor importância. Lemos muita bobagem na internet – e peço desculpas por fazer você perder tempo com esse texto ao invés de se dedicar com o que realmente importa – e fazemos muito pouco acontecer. O tempo que perco entrando nos mesmo sites de sempre, para ver as mesmas coisas de sempre seria muito melhor gasto se empregado no início das pesquisas de um livro que sonho há muito tempo, por exemplo.

É por isso que admiro uma amiga que tomou a decisão de cometer um suicídio virtual. Acredito que ela vá ter uma vida muito menos poluída daqui para frente. Provavelmente vai perder um vídeo ou outro de criança esperta ou de um gatinho fofo. Talvez nem chegue a ler esse post. No final do dia, porém, ela não será menos inteligente do que eu do que você por ter perdido uma meia dúzia de memes que circulariam na timeline do Facebook dela. Acredito que haja até uma grande chance de ela se tornar uma pessoa mais produtiva e de, por isso, se destacar muito mais na vida do que eu ou você. (Sei que tem gente que pensa o contrário e até já escrevi sobre isso, mas talvez o processo seja de longo prazo.)

Tenho planos que não saem do papel há anos. Não tive tempo de fazer com que esses sonhos se tornassem realidade? Não tive vontade de tirar essas ideias do papel? Ou o que faltou na verdade foi coragem? Fico com a última opção. Estamos nos acovardando. Vemos tanta gente fazendo tanta coisa incrível por ai, que ficamos com medo de fracassar. E se a minha empresa não for tão genial quanto a do Zuckerberg? E se meu livro não fizer tanto sucesso quanto os da J.K. Rowling? E se meu documentário não for tão bom quanto os do Eduardo Coutinho? Nos obrigamos ao sucesso, como se essa fosse a única opção. E como resultado não temos fracassos nem sucessos. Não temos nem mesmo boas histórias para contar. Não enxergamos justamente que essas pessoas só se destacaram porque tiveram a coragem de se mexer um pouco.

Optamos, mesmo que inconscientemente, pelo ostracismo e pela mediocridade que tanto nos apavora.  E para disfarçar o real motivo dessa opção por não realizar nossos sonhos, nos fingimos de ocupados – mesmo que boa parte da ocupação seja, na verdade, ver o que o povo anda dizendo nas redes sociais.

Sei que se mudar essa forma de encarar o mundo fosse fácil, eu não teria dedicado a última meia hora a escrever esse texto. Não haveria necessidade. Fazer isso é parte do meu processo de mudança também. Ainda não estou pronto, mas já tomei a decisão de me mexer. Não vou mais correr na esteira ergométrica. Me recuso a ficar cansado e olhar sempre para as mesmas paredes. Vou para a rua, que é onde a paisagem é uma a cada instante. E se, por algum acaso, não chegar a lugar nenhum ou tropeçar em uma dessas pedras portuguesas que têm provocado tanto barulho nos últimos tempos, que seja. Para o bem ou para o mal, nem eu nem o cenário seremos os mesmos.

(P.S.: Pouco depois de escrever esse texto, me deparei com uma história que me fez ter certeza de que ficar parado não adianta.)

Um sincero pedido de desculpas

Antes do próximo post, queria fazer um sincero pedido de desculpa à meia dúzia de leitores que entra nesse blog com certa frequência. Fiquei muito ausente nas últimas semanas. Até tentei escrever algumas coisas, mas o resultado foi uma dúzia de contos sem fim espalhados pela tela de meu desktop e sabe-se lá quantos textos sobre assuntos variados que nem me dei ao trabalho de salvar.

Posso dizer que foi o excesso de trabalho que me impediu de escrever mais vezes aqui. Mas é mentira. Já teve épocas em que estive ainda mais atolado e mesmo assim reservei um tempinho para soltar. Nos últimos dias, porém, faltava alguma coisa para que os textos saíssem. Acho que tem muito a ver com aquela frase do Rubem Alves, “ostra feliz não faz pérola”. Apareceu um novo grãozinho de areia e hoje acordei com uma vontade danada de voltar a ser produtivo. Que seja eterna enquanto dure!

(E voltemos à programação normal!)

Lutemos pelos 20 centavos – e depois pelo resto

Que os 20 centavos são só a gota que fez o copo transbordar todo mundo já sabe. Mas não podemos nos esquecer dos 20 centavos. Vendo de fora, estou um tanto preocupado com o rumo que o movimento tomou. Existe muita coisa para se protestar? Existe. Tem como mudar tudo isso de uma vez? Não. O jeito, então, é ir aos passos. Não adianta protestar de uma única vez contra o aumento da passagem, a PEC 37, o Feliciano (lembram dele?), a corrupção e a quantidade de laquê utilizada pela Dilma. Quem abraça tudo não abraça nada.

O que justifica um movimento tão grande é justamente que, pela primeira vez em muito tempo, tivemos um objetivo concreto para lutar. Tradicionalmente as passeatas contra “tudo isso o que está ai” são vazias, ocupadas por umas poucas dezenas de militantes aguerridos da esquerda ou da direita. Os 20 centavos são essa coisa palpável que faltava para dar vontade de sair de casa e correr o risco de voltar ferido ou ser preso. Não é só o preço da passagem que está levando as pessoas às ruas, mas é por isso que tem que se lutar nesse momento – sob a pena de ver o movimento se esvaziar rapidamente. Fazer o preço baixar vai ser a prova de que a mobilização é capaz de mudar as coisas e pode servir como incentivo para que a luta continue. Qual o próximo tema da pauta? Não sei. Mas só trará resultados se, novamente, for algo absolutamente concreto.

Não gosto da expressão o “gigante acordou”. Antes de falar isso, lembre-se que você também faz parte do gigante. Se você tem a impressão de que ele estava adormecido, é porque você também estava. O brasileiro luta, sim, e não é de hoje. Uma passeata fecha pelo menos parte da avenida Paulista a cada quatro dias. Um povo que protesta no mínimo duas vezes por semana não me parece um povo adormecido. Parcelas da população, sim. E alguns desses estão, de fato, acordando.

Entre meus amigos mais engajados, vi alguns reclamarem da presença de um pessoal com cara de elite nos protestos. É como se tivessem tomando algo que é mais deles do que dos outros.Oras. É natural que isso aconteça. Um movimento não é bolo para crescer apenas com base nos mesmos ingredientes. É preciso agregar gente. Ao invés de se preocupar com a loirinha de olho azul que está protestando do seu lado, preocupe-se em manter a unidade do discurso. Não olhe para ela como uma inimiga, querendo roubar a “sua” manifestação. Política se aprende fazendo, então ajude a moça a fazer política.

Não sei quanto tempo vão durar os protestos. Não sei se a passagem vai baixar. Não sei o que vai vir depois disso. Mas sei que é preciso manter a roda girando. Já tivemos mobilizações que, depois de alcançados os objetivos, se desfizeram. Resta a nós lutar para que, dessa vez, a luta não acabe.

 

Todas as qualidades da menina sem qualidades

Assisti ontem ao primeiro capítulo de A Menina Sem Qualidades, série de ficção da MTV Brasileira. Fiquei impressionado e mal posso esperar pelo próximo episódio, hoje à noite. A história é forte e requer uma boa dose de estômago para ser assistida. Dificilmente seria exibida por qualquer outra emissora – pelo menos não com tanta crueza.

Não se engane pelo fato de a protagonista ter 16 anos. A série não lembra em nada Malhação. A adolescente interpretada por Bianca Comparato é muito mais próxima da realidade do que qualquer princesa ou vilã da eterna novelinha global. A Menina Sem Qualidades fala da adolescência com tanto realismo que recebeu censura de 18 anos. Pelo que andei vendo, não vão faltar cenas envolvendo álcool, cigarro e sexo. Nada daqueles deliciosos sucos naturais que o pessoal de alguma temporada qualquer de Malhação tomava no Gigabite Café. Nada contra, mas sempre senti falta de algo que retratasse a vida da juventude de um jeito menos florido.

A protagonista, Ana, está longe de ser uma menina comum. Com uma inteligência fora do normal – já leu todos os livros de todas as bibliotecas por onde passou -, anda sempre com um soco inglês por perto, para qualquer emergência. Mas Ana está muito próxima de uma menina comum. Começa a descobrir e entender sua sexualidade e sofre bullying na escola. Gosto dessa dualidade, porque ela torna tudo muito mais real. Só a primeira meia hora da história já me deixou com vontade de ler o livro que deu origem à série.

É uma pena que a MTV esteja em crise. Esses lampejos de coragem e genialidade vão fazer falta quando o canal virar retransmissora de uma igreja qualquer.