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Arquivo da Categoria ‘jornalismo’

Essa vida de frila

Tem mais ou menos um mês que sai de meu último emprego. Desde então, venho trabalhando como freelancer – e estou muito feliz com isso. Quem é jornalista sabe o quanto está difícil viver em uma redação. O stress beira níveis absurdos e a estabilidade é uma lenda. A maioria absoluta dos empregadores prefere beber um copo de Ades de maçã do que pagar direitos trabalhistas. Isso é parte dos motivos que me levam a ter tanta satisfação com a “nova vida”, mas tem muito mais.

Acho que o que mais me encanta é a sensação de liberdade. Posso organizar minha agenda conforme for mais conveniente. Também não sou obrigado a fazer “cena” nos momentos em que não tenho nada para apurar ou escrever. Ao invés de fingir que continuo a trabalhar enquanto atualizo meu Facebook, posso muito bem pegar uma revista e ler uma ou duas reportagens. Isso para não falar na possibilidade de escolher se vou trabalhar de manhã, de tarde ou de noite e na de tratar de assuntos absolutamente novos todos os dias – nesse um mês, já falei de agronegócio, trabalho social, culinária, ferrovias…

Sei que nem tudo são flores. Já tive outra encarnação como frila e o fim do ano foi de secura quase absoluta. Não me iludo pensando que sempre vou ter trabalho sobrando. Mas essa perspectiva não me deixa mais tão assustado. É lógico que preciso de dinheiro para viver, mas com um pouco de planejamento os meses de vacas mais gordas ajudam a manter os meses mais fracos.

O mais importante de tudo é que logo comecei a sentir alguns efeitos dessa nova opção de carreira. Um dos principais é este blog. Estou mais criativo ultimamente e tudo o que vocês leem aqui é resultado direto disso – e também do fato de eu poder parar e escrever esse tipo de coisa quase que a qualquer hora. Também tenho conseguido programar e preparar melhor alguns projetos pessoais. São coisas pequenas, mas que certamente vão me dar uma grande satisfação pessoal.

Não sei por quanto tempo toda essa alegria com a vida de freelancer vai durar. Pode ser que acabe logo ou que fique para sempre. O que importa é que, enquanto ela existir, não vou encarar o fato de ser frila como uma falta de opção, mas sim como a minha opção. E isso, eu garanto, não é pouca coisa.

 

Cada vez mais difícil

Sei que vai parecer que estou ficando monotemático, mas a sequência de fatos não me deixa falar em outra coisa. Temos mais um elemento para a enorme lista que comprova o quanto está cada vez mais difícil ser jornalista. Um pesquisador Universidade de Campinas (Unicamp) fez um estudo cujo resultado foi o indicativo de que casos de depressão, assédio moral e uso de cocaína só aumentam no jornalismo.

O pior de tudo é que, como já vi dessas três coisas dentro das redações, o resultado não surpreende nem um pouco.

Uma decisão inadmissível

 

Mal acabei de subir o post que tinha escrito hoje cedo sobre o pessoal da Caros Amigos ter entrado em greve e me deparei com uma terrível notícia. A direção da Editora Casa Amarela, responsável pela publicação da revista, decidiu demitir toda a redação da revista como represália à decisão dos jornalistas de lutarem por seus direitos mais básicos.

A decisão da editora é inadmissível. Demitir trabalhadores em greve é ato de covardia, mais um que se junta à imensa lista das agressões praticadas por aquela empresa. Não que seja de se espantar que uma companhia que se recuse a registrar seus funcionários e pagar a eles os direitos mais básicos – ou mesmo um salário digno, conforme podemos concluir pelas informações que circularam sobre o tamanho da folha de pagamento da editora – vá ter alguma compaixão com essas pessoas.

Mesmo assim, aplaudo a coragem dos trabalhadores da Casa Amarela, que tiveram a coragem de entrar em greve, mesmo sabendo que as consequências poderiam ser essas. Como disse mais cedo, perder essa batalha não deve ser motivo para desestimular a classe. Jornalista é trabalhador como qualquer outro e deve se organizar para enfrentar as batalhas impostas por um ambiente de trabalho cada vez mais hostil. Só com a união, nas próximas tentativas de greve a resposta da empresa será a correta: mesa de negociação.

Que a luta não pare!

Jornalista é peão, sim

Costumo brincar meio a sério que jornalista não gosta de ser lembrado que é peão. Fale em qualquer forma de organização sindical ou em cobrar qualquer tipo de postura dos patrões e se prepare para ouvir que aqui não é assim, que empresas de mídia são diferentes, que se você faz uma vez, se queima em todo e qualquer lugar, etc, etc e tal.

O que muitos colegas nunca se deram conta é que essa precarização do mercado de trabalho que vemos no jornalismo é resultado direto da postura elitista dos trabalhadores dos meios de comunicação, que preferem receber salários de fome, não serem registrados, verem seus Fundos de Garantia atrasando mês a mês e encararem jornadas de trabalho cada vez maiores sem o devido pagamento de horas extras do que se organizarem e fazerem algum ato que remeta às lutas que trouxeram tantos resultados positivos para categorias como os bancários, os metalúrgicos e os motoristas.

De vez em quando pipoca aqui e ali uma ou outra medida que me fazem ter esperança de que as coisas vão mudar. Essa semana foram os colegas da revista Caros Amigos, que resolveram entrar em greve. Há muito já se sabia no mercado que as condições de trabalho por lá não andavam das melhores. Equipe reduzida, terceirização dos trabalhadores e até atrasos no pagamento. Enfim, nada muito estranho em se tratando do jornalismo. Mas ao saber que a situação tendia a piorar e que a equipe já pequena ia ficar ainda menor, os jornalistas de lá resolveram agir.

Talvez essa paralisação não traga resultados práticos. A equipe será mesmo reduzida, os salários continuarão baixos e os trabalhadores sem o direito a ter o registro em carteira. Seja como for, o fato de eles terem resolvido marcar uma posição e escancarar o que se passa lá dentro, ao invés de abaixar a cabeça e pensar que “no jornalismo é assim mesmo”, já é valioso por si só. Mesmo que não traga resultados imediatos. Mesmo que tudo pareça que foi em vão. É uma semente e, vocês podem ter certeza, se esse não for um fato isolado e os jornalistas passarem a se admitir como trabalhadores iguais aos outros, as coisas vão começar de fato a mudar.

É lógico que essa discussão envolve uma série de outros fatores. O jornalismo está em crise, as empresas não sabem como pagar suas contas, ninguém descobriu direito como fazer dinheiro com a internet… Não é justo – e nem mesmo admissível – que essa conta caia, porém, no colo dos jornalistas. Não deixemos que a conta caia nos nossos colos!

Atualização - Mal publiquei este texto e já temos que atualizá-lo. A Editora Casa Amarela tomou a nojenta decisão de demitir todos os jornalistas, em represália à greve.

Não tem dinheiro, mas tem nossa audiência

Que a vida de jornalista freelancer não é fácil acho que todo mundo sabe. Mas tem horas em que simplesmente o que nos resta é perder a fé na humanidade. Exemplo disso é essa história que o jornalista americano Nate Thayer contou em seu blog.  Para quem não conhece, Thayer é um grande jornalista investigativo e uma das referências quando o assunto é trabalho como freelancer.

Resumindo a história, o super premiado Thayer foi abordado pela editora da Atlantic Magazine. A proposta? Que a revista publicasse um texto de Thayer sobre as relações diplomáticas entre Estados Unidos e Coreia do Norte. O que ele receberia em troca? A audiência de 13 milhões de leitores da Atlantic. E nada mais. Nem um centavo de dólar ou de won norte-coreano.

Quem está batalhando nessa vida, já deve ter visto inúmeros sites pedindo o apoio gratuito de redatores. Não bastasse os calotes a que todo frila está sujeito ao longo da vida, temos que ver esse tipo de coisa por ai. Nenhum jornalista jamais deveria ser abordado com esse tipo de proposta – e, quando fosse, jamais deveria aceitar. Mas o fato de um nome como Thayer receber esse tipo de proposta é um indicativo de quão fundo a crise do jornalismo pôde chegar.

Como jornais, sites e revistas pretendem manter a qualidade de seus produtos com esse tipo de política? Aliás, será que eles de fato pretendem manter a qualidade de seus produtos ou estão apenas preocupado em sobreviver enquanto há tempo?

Ele se calou… e eu perdi a oportunidade

Tem uns poucos que tocou a musiquinha do Plantão informando a morte do presidente da Venezuela, Hugo Chavez. Assim que o barulhinho irritante começou, eu já imaginava do que se tratava. Antes mesmo de a cara de William Bonner ocupar a tela já comecei a lamentar.

Não que eu fosse um grande admirador de Chavez. Muito menos sou daqueles que acha que todo mundo que morre vira santo. O que me fez lamentar a morte de Chavez foi minha própria falta de timing. Há alguns dias, logo que decidi que ia voltar a ser frila em tempo integral, comecei a planejar uma viagem a Caracas. A ideia era chegar à capital venezuelana a tempo de acompanhar a tensão das pessoas em torno da possível morte do homem que liderou os rumos do país nos últimos 13 anos. Já tinha consultado valor de passagem e de hospedagem. Era perfeitamente viável fazer a viagem sem o respaldo de nenhum veículo. De lá mesmo ou na volta, teria um material riquíssimo na mão, que teria o prazer de oferecer para algumas publicações em troca de uns caraminguás.

Perdi a oportunidade de acompanhar este momento. Mas fiquei com a lição – que já conhecia na teoria, mas nunca tinha sentido na prática – de que, no jornalismo, mais importante do que ser bom apurador e escrever direitinho, é estar na hora certa e no lugar certo.

Que a próxima ideia não fique só no plano.

Congresso Abraji

Meus queridos,

Estão abertas as inscrições para o 7º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela nossa querida Abraji. O evento vai acontecer nos dias 12, 13 e 14 de julho, aqui em São Paulo.

Participei de várias das edições anteriores e certamente estarei nessa também. Recomendo muito o Congresso, que é uma ótima oportunidade de fazer contatos, rever amigos e, principalmente, aprender muito com os feras da profissão.

Minha sugestão é que façam a inscrição o mais rápido possível, não só por causa do preço, mas porque as salas mais concorridas esgotam super rápido!

O que aprendi com Célia

Na última semana tive o prazer de receber em casa alguns exemplares da jornal Cândido, editado pela Biblioteca Pública do Paraná. A alegria de ter em mãos um jornalzinho pequeno e desconhecido se justifica. As páginas dez e onze estão preenchidas com um texto que apurei e escrevi durante a oficina de reportagem que fiz com Eliane Brum em Curitiba, no fim do ano passado, e do qual muito me orgulho. Já falei do curso aqui e aqui, mas hoje quero falar sobre o que resultou dos dias que passei em Curitiba.

No último dia, Eliane nos pediu para sair às ruas do centro da cidade e encontrar alguém que topasse falar sobre felicidade (não os conceitos filosóficos, mas a felicidade real, palpável). Depois que os textos estivessem prontos, Eliane iria escolher um para ser publicado no jornal da Biblioteca.

Em um primeiro momento, achei que tinha tido um baita de um azar, afinal a pessoa que mais me deu papo, Célia, não gostava de falar da felicidade. Queria encontrar outra, mas não teria tempo para isso. Na volta para a Biblioteca fiquei até meio chateado por não ter conseguido atender à missão passada pela Eliane. Mas ao me ouvir contando para os colegas o que tinha escutado de minha entrevistada, me dei conta da lindeza de história que eu tinha nas mãos. Resolvi me jogar no texto e, depois de algumas sugestões da Eliane, a história ganhou os contornos finais, que vocês podem ver aqui ou no Cândido que está circulando por Curitiba esse mês.

A história de dona Célia me fez pensar muito sobre a vida e o entrevistar. Vamos primeiro à lição mais fácil, a jornalística. Me forcei a dar a ela a oportunidade de responder com o silêncio e me forcei a saber entrevistar também seu gestos, movimentos e atitudes. Fazer isso não é fácil e, para mim, ainda não é uma coisa natural. Durante o exercício busquei esse detalhismo, porque tinha sido orientado a fazer isso. Ver o resultado final do texto, porém, me deixou estimulado a perseguir cada vez mais o detalhe, a escutar cada vez mais o silêncio, a conversar cada vez mais com os olhos. Aos poucos, vai ficando mais fácil e tenho a esperança de que um dia seja algo tão natural que eu nem repare mais que estou fazendo.

Agora a lição mais difícil de assimilar. Ao conversar com Célia, uma mulher que diz não ter mais alegrias, aprendi também a valorizar um pouco mais a felicidade. É difícil definir o que é isso, mas é muito fácil saber quando ela nos abandona. Ver os olhos de Célia falando sobre a mãe ou entristecidos enquanto a boca sorria me estimulou a querer me agarrar cada vez mais à felicidade e dar cada vez menos bola às pequenas tristezas da vida.

O que quero agora é aprender fazer as pequenas felicidades serem grandes como uma sombra projetada na parede e as grandes tristezas, pequenas como sombra na hora do Sol a pino!

Irritando os entrevistados

Outro dia esta lendo um post no blog do Rodrigo Russo, correspondente da Folha em Londres, sobre o grande entrevistador britânico David Frost (aquele do filme Frost/Nixon).

Segundo o Rodrigo, Frost diz que, “se os assessores não ficarem insatisfeitos, não houve boa entrevista”. Isso me fez lembrar de um jornalista que, certa vez, disse que teve certeza de que fazia bem o seu trabalho no dia que acumulou processos de figuras como Antonio Carlos Magalhães e Paulo Maluf.

Sei que num primeiro momento pode parecer estranho o prazer que irritar ou desagradar alguém pode dar para esses repórteres, mas no fundo acho que consigo entendê-los. Por lidarem com temas muito delicados (política, principalmente), a irritação dos entrevistados é um sinal para eles de que conseguiram extrair informações valiosas para o público. É aquele prazer de ter a certeza de que foi além do óbvio. Nem sempre é um furo, mas sim um passo além daquilo que todo mundo já sabe. Espero que todo jornalista consiga sentir esse prazer algumas vezes ao longo da carreira.

Morreram Chico Anysio

Acho que uma das coisas mais difíceis é criar uma boa manchete, que fuja do óbvio e informe ao mesmo tempo. Resumir tudo o que será dito em uma ou algumas matérias em apenas uma frase pegadora é muito complicado. Por isso achei incrível a capa do jornal carioca O Dia de hoje. Além de ser uma bela homenagem ao Chico Anysio, consegue fugir do óbvio sem forçar a barra.

Primeira página do carioca O Dia em homenagem ao mestre Chico