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O que define um repórter?

Em meio a uma disputa fratricida entre a chamada mídia “tradicional” e a “pós-jornalística” Mídia Ninja, Eliane Brum resolveu mostrar de que lado está. Como era de se esperar, ela está do lado da boa reportagem, seja praticada por quem seja. Adoro às definições que ela dá a um bom repórter e a uma boa reportagem. Foi de uma dessas que surgiu o nome desse blog. Nesse texto, mais uma vez, ela explica o processo de construção de uma boa reportagem – que passa não só pela escuta, mas pelo esvaziamento de ideias e pretensões, um processo dificílimo e que só traz resultado com muito treino e esforço.

Não adianta me estender muito por aqui. Nada do que eu disser será capaz de dizer mais do que o texto de Eliane. Quem quiser, então, leia aqui.

Obituários não devem absolver os pecados

Com certeza você já reparou: sempre que morre algum político ou celebridade, os obituários costumam destacar mais as contribuições daquela pessoa à sociedade do que seus eventuais defeitos. Não importa se o sujeito é o maior corrupto da história do país ou se era um daqueles artistas arrogantes que só se preocupam em destratar empregados e fãs. No final das contas, por mais que até toquem nas questões delicadas, os obituários sempre terminam com uma cara de absolvição de pecados.

Esse modelo sempre me incomodou. E muito. Nunca vi lógica em passar a mão na cabeça de quem sempre fizemos questão de bater. É um problema cultural, eu sei, mas não faz o menor sentido.

Outro dia me senti bastante aliviado ao me deparar com um obituário que seguiu o modelinho que, acredito, todos deveriam adotar – mesmo que não tão exagerado. O jornalista Hunter Thompson nunca foi um grande fã de Richard Nixon. Pelo contrário. Os dois representavam visões de mundo completamente antagônicas. Quando Nixon morreu, em 1994, Thompson foi escolhido pela Roling Stone para escrever o obituário do ex-presidente. O resultado é de uma sinceridade que chega a ser assustadora – bem a cara de Thompson, diga-se de passagem.

Logo de cara ele avisa a que veio:

Richard Nixon se foi e eu fico mais vazio por isso. Ele era uma coisa real – um monstro político saído de Grendel e um inimigo muito perigoso. Ele poderia apertar sua mão e te apunhalar pelas costas ao mesmo tempo. Ele mentiu para seus amigos e traiu a confiança de sua família. Nem mesmo Gerald Ford, o infeliz ex-presidente que perdoou Nixon e o manteve fora da prisão, ficou imune às suas diabólicas consequências. Ford, que acredita firmemente em Céu e Inferno, disse a mais de um de seus famosos companheiros de golfe: “Eu sei que eu vou para o inferno, porque eu perdoei Richard Nixon”.

Esse é apenas o primeiro parágrafo do texto, que vai ficando mais crítico a cada linha até chegar à conclusão de que Nixon será uma marca constante na vida de todos os americanos por muitos e muitos anos. Uma marca constante e negativa, que fique bem claro. Para quem quiser ler a versão completa, o site da The Atlantic (aquele mesmo site que não gosta de pagar o serviço de seus frilas, é bom lembrar) disponibilizou o texto.

Com Sarney internado na UTI, a leitura vem bem a calhar. Ainda outro dia, vi gente criticando um jornalista que lembrou de todo o mal causado pelo ex-presidente e sua turma aos povos do Maranhão e Amapá. Segundo os críticos, o momento é delicado para a família e não é bom ficar retomando esses “detalhes”. Será?

Quando é hora de pressionar o entrevistado?

Uma das funções mais difíceis do jornalista é entrevistar alguém. Ter o cuidado e o feeling de fazer a pergunta certa na hora certa e não interromper a pessoa antes de ela dar chegar à melhor parte da resposta é uma daquelas habilidades praticamente impossíveis de se ensinar na faculdade e que só são desenvolvidas com muita prática e bom senso. Particularmente, tenho o hábito de ouvir muito mais do que perguntar. Não sei se é o melhor sistema, mas é o que mais funciona para mim. Já aconteceu de eu ficar mais de uma hora com o entrevistado e intervir apenas umas duas ou três vezes. Descobri coisas incríveis, que jamais teria descoberto sufocando a pessoa com uma tonelada de questões.

Não foi por mero acaso que batizei esse blog de O Escutador e que escolhi a frase “Escutar também é falar”, do grande Mia Couto, como o lema dessas escrevinhações. Fico extremamente irritado quando vejo alguns colegas com a mesma postura do repórter daquele vídeo do Porta do Fundos. Para quem não vive o dia a dia do jornalismo, pode até parecer que aquilo é um exagero. Não é bem assim. Me cansei de ver gente que se diz jornalista, mas só pensa em como cavar a manchete da próxima edição. Pior. Já fui orientado por chefes a arrancar determinadas declarações de um entrevistado. E reparem que fiz questão de não utilizar aspas cercando o arrancar.

É lógico que, em alguns casos, pressionar um entrevistado é fundamental. Nessas horas, porém, a ideia não é fazer que o sujeito responda a pergunta do jeito que você ou seu chefe quer. O objetivo, na verdade, é simplesmente que ele responda e pare de escorregar. Foi o que aconteceu em uma histórica entrevista do Paulo Maluf para a Folha de São Paulo. Não consegui encontrar o link, mas a transcrição da conversa entre o político e o repórter mostra bem o quanto é complicado lidar com gente especializada em fugir de perguntas que os coloquem em uma saia justa.

Lembrei desse caso ao me deparar com o vídeo abaixo. Nele, uma entrevistadora da Fox News.com perde seus dez minutos com o entrevistado insistindo em uma mesma questão – que já tinha sido respondida antes do primeiro minuto, apesar de não da forma que ela desejava e esperava. O resultado final do “bate-papo” é constrangedor – para a moça, para o pesquisador e para nós, público.

(Não encontrei uma versão com legendas. Um breve resumo da história é o seguinte: Reza Aslan, um estudioso de religião com PhD e muitos anos de trabalho, escreveu um livro sobre Jesus. Só que ao invés de se ater ao trabalho do pesquisador, a jornalista preferiu perguntar o que levou um muçulmano a escrever sobre Cristo. Ela chega a dizer que o fato é tão estranho quanto um democrata escrever um livro sobre um presidente republicano – o que, como sabemos, não tem nada de estranho, imoral ou ilegal.)

Descobrir como – e quando – insistir em uma questão é um desafio. Mas o fato de ser uma missão difícil não deveria abrir brecha para situações ridículas como essa.

Um breve desabafo sobre a situação do jornalismo

Ser jornalista nunca foi uma profissão fácil. Ameaças de todo tipo, horários de trabalho improváveis, salários absurdamente baixos. Desde os tempos de Honoré de Balzac e seu Ilusões Perdidas só aceitou ser jornalista quem tinha uma visão romântica da vida. Sem isso, o jornalismo não teria o que destruir. De um tempo para cá, porém, a situação só fez por piorar.

Não é mero acaso que faz com que, mesmo tendo tão pouco tempo de formado, eu já tenha perdido as contas de quantos dos meus amigos desistiram de trabalhar como jornalistas. Muito menos é mero acaso que, pouco mais de seis anos depois de ter escolhido a profissão, eu já esteja cansado. E não venham culpar o fato de eu ser da geração Y. Eu e meus colegas não somos os únicos que estamos cansados. O artigo da jornalista argentina Graciela Mochkofsky, na Piauí desse mês, é um ótimo exemplo disso. Ela descreve, passo a passo, como se deu a construção, a desconstrução e a reconstrução de seus ideais jornalísticos. Como pano de fundo, a falência do bom jornalismo como instituição.

Para se ter uma noção ainda mais clara de que a deterioração não depende de idade ou de geração, basta fazer uma visita à sede de qualquer meio de comunicação. Serão poucos os jornalistas de cabelo branco – e menos ainda os que combinam o cabelo branco com pleno controle das sanidades mentais. Costumo dizer que jornalista não envelhece. Das duas uma: ou ele desiste ou fazem com que ele desista antes de ter netos.

Muitos fatores têm contribuído para esse quadro. Nos últimos 12 meses, vi mais de 300 jornalistas – em uma conta conservadora, feita de cabeça – serem mandados embora, apenas nos grandes meios brasileiros. Nos Estados Unidos, a situação é ainda pior. Isso não é normal. As empresas estão em crise e não conseguem encontrar uma saída. No mundo todo, jornais têm morrido em uma velocidade assustadora e outro tanto definha a passos largos para um triste fim.

A visão romântica que me fez escolher essa profissão ainda persiste. Não consigo imaginar o mundo sem jornalismo e sem jornalistas. O problema é que o mundo muda a uma velocidade muito maior do que os velhos e os novos barões da mídia são capazes de acompanhar. Fazer jornalismo de qualidade custa caro e nos últimos anos tem se tornado raro quem está disposto a investir – seja lá quanto for – em uma boa reportagem. Há quem diga que quem gosta de boa reportagem é o jornalista e que, para o leitor, não faz diferença de que forma foi feita e quanto tempo levou a apuração. Não é verdade. Uma pesquisa recente mostrou que 31% dos americanos abandonaram seus meios de comunicação favoritos, porque não encontravam mais o mesmo nível de informação. É a crise alimentando a crise.

Não é de se assustar que os nomes que inspiraram Graciela Mochkofsky a perseguir o bom jornalismo no início dos anos 1990 sejam exatamente os mesmo que me inspiram vinte anos depois. Os meios de comunicação foram incapazes de produzir outros Gays Taleses e Joeis Silveiras nas últimas três ou quatro décadas. É lógico que temos uma Eliane Brum aqui e outra acolá, mas não basta. Gente talentosa não faltou – e eu tive a sorte de sentar a poucas cadeiras de distância de muitas delas. O que faltou foram os recursos para que essas pessoas não dependessem mais apenas de seus textos iluminados e de suas magníficas capacidades de observação. Talento não é suficiente no jornalismo. Quem é repórter sabe como, sem chance de erro, uma entrevista feita cara a cara é sempre mais proveitosa do que um telefonema ou – o horror dos horrores – o envio de algumas perguntas para serem respondidas por e-mail. O problema é que, em um crescente assustador, as empresas de mídia incentivam e forçam seus repórteres a ficarem presos na redação durante as 8, 10, 12, 14 ou mais horas de expediente.

Em meio a tanta crise, as empresas se tornam ainda mais injustas. Demissões injustificadas e injustificáveis, mentiras para os funcionários, atrasos no pagamento, eliminação de direitos trabalhistas e tantos outros casos maléficos já se tornaram um triste padrão de conduta. Não é de se espantar que nossa profissão seja incluída em qualquer ranking que se preze de ocupações mais estressantes ou insalubres.

Por trás desse cenário, eu vejo um momento de transição. Dentro de pouco tempo, a cobertura diária dos fatos será um tanto diferente da que conhecemos hoje – o tamanho desse tanto ainda é difícil de imaginar. Boas iniciativas começam a surgir em todo o mundo. Tanto os jornalões como jornalistas empreendedores e independentes têm aprendido a produzir reportagens digitais de qualidade. O Leonardo Sakamoto – um jornalista que precisava ser mais conhecido e reconhecido – fez com alguns amigos uma compilação de bons exemplos. Outro dia também apresentei bons exemplos de documentários pensados para a internet. É gostoso ver como tem coisa vinda de diversas partes do mundo e feita por todo tipo de gente.

Acredito que o quadro momentâneo é desesperador, mas que haja uma saída para o jornalismo – repito: não consigo ver o mundo sobrevivendo por muito tempo sem gente capaz de levantar e traduzir informações e histórias. O problema é que a saída, como tudo que envolve bom jornalismo, custa caro. Mais do que isso, ainda é uma saída incerta.  Como resultado, muita gente vai ficar pelo caminho e pode ser que não sejam os melhores os que sobrarão. Eu, entre uma vontade e outra de jogar tudo para o ar e inventar uma nova profissão, vou tentando encontrar um jeito.

Cobrir o Chico atravessando a rua é mais barato

Em minhas andanças pela internet, me deparei com esse vídeo:

Por mais que Alisa Miller esteja falando sobre a realidade americana, é impossível não fazermos uma relação com o que acontece no jornalismo brasileiro. Por aqui, com raras exceções, as redes de TV e os jornais mantêm equipes cada vez mais enxutas no exterior. Em alguns casos, o repórter tem que fazer as vezes de cinegrafista. Enquanto isso, notícias como Caetano Veloso atravessando a rua ou Chico Buarque comprando baguetes para o café da manhã dominam a internet. A pergunta é: o leitor realmente quer saber dessas coisas ou acostumá-lo com esse tipo de informação é muito mais barato e lucrativo para as empresas de mídia?

A importância de se assumir falível

Dow Jones - 23/4

Tudo culpa de um boato

Não precisa ser nenhum especialista em finanças para bater o olho nesse gráfico e ver que alguma coisa aconteceu de errado com o índice Dow Jones na tarde hoje. O que foi? Um boato espalhado pela internet e que chegou à conta da Associated Press no Twitter de que uma bomba teria explodido na Casa Branca.

Ao que tudo indica, a postagem na conta da AP foi ação de hackers, mas o caso é um bom exemplo da responsabilidade do jornalismo. Qualquer coisa que seja divulgada por um meio considerado confiável, é tido como verdade e as consequências são grandes. Taí a importância de a mídia saber se assumir falível, como defendi hoje mais cedo.

Quando o jornalismo deve pedir desculpas?

O jornalismo, como qualquer outra atividade, às vezes erra – muitas vezes, para falar a verdade. No jargão, conhecemos essas falhas como “barrigas” e, acredite, elas acontecem muito mais do que você imagina. Na maioria dos casos são pequenas e não provocam grandes danos ou repercussão. Um nome trocado ou uma inversão na ordem dos dados. Algumas vezes, porém, o impacto é grande. Informações que afetam resultados de bolsas de valores ou que colocam a população em estado de alerta desnecessariamente. A chance disso acontecer é maior na cobertura de grandes tragédias, como os atentados na maratona de Boston. Nessa hora, a redação fica tomada por uma adrenalina tão grande que é difícil separar o certo do errado. É ai que se escolhe uma foto de mau gosto. Ou pior do que isso, é ai que se dá uma barrigada incrível.

Foi o que aconteceu com o New York Post, que deu uma capa acusando dois inocentes de terem cometido o atentado. O erro foi apenas o auge de uma sequência de falhas de apuração que começou com a informação de que 12 pessoas haviam sido mortas nas explosões, quando na realidade foram 3 vítimas fatais. Mediante tantas falhas, qual foi a resposta dos editores do jornal? Nenhuma.

O silêncio fez tanto barulho que um site independente resolveu fazer o que a equipe jornal deveria ter feito. O resultado pode ser visto no vídeo abaixo:

Para ler a carta que eles colocaram no meio dos jornais, clique aqui.

A pergunta que fica é: quando um veículo de comunicação deve pedir desculpas pelos erros cometidos? Não falo apenas dos nomes digitados errados ou das óbvias falhas de pensamento. Esses são males menores e, em alguns casos, até engraçados. Prova disso é essa seleção feita pela Folha dos “melhores” erros de sua história.

O que eu falo é dos erros de apuração, que induzem o leitor ao erro e, em alguns casos, ao pânico. A publicação da foto de um inocente como se fosse o culpado pelos atentados é um erro grave, que mexe com a vida e a cabeça de milhões de pessoas. É uma pena que o jornalismo só tenha por hábito pedir desculpas nos momentos mais fáceis – ou então quando é acionado por uma fonte raivosa. É grave também o fato de as correções ficarem sempre restritas a um pequeno cantinho despercebido no  pé de alguma página pouco lida. Raros são os casos em que a errata ocupa o mesmo espaço da notícia. Bem que podíamos seguir o exemplo do Diário de Teófilo Otoni mais vezes.

Grávida que sobreviveu a acidente está viva

Um raro caso de jornal que assume uma falha de apuração

Documentários em tempos de internet

Todo mundo está tentando encontrar um caminho para fazer o jornalismo aproveitar o máximo possível das ferramentas apresentadas pela internet. As possibilidades são muitas e os resultados benéficos para todos – empresas, que ganham uma sobrevida; jornalistas, que ganham novas formas de contar histórias; leitores, que têm a oportunidade de aprofundar seus conhecimentos sobre determinados temas.

Umas das últimas iniciativas que vi nesse sentido foi esta reportagem da BBC. A junção de vídeos e gráficos me parece interessante, mas ainda há algumas coisas que me deixam bastante incomodado com o projeto. Falta aparar algumas arestas e tornar a coisa ainda mais interativa. Natural, já que eles mesmo dizem que ainda estão na faze beta dessa linguagem e pedem sugestões de melhorias.

A iniciativa me fez lembrar de um projeto desenvolvido pela Agência Brasil, no auge do bom trabalho realizado lá por gente da qualidade de Eugênio Bucci e André Deak. O projeto é o Nação Palmares. Procurei o link, mas tudo indica que não está mais no ar (mais um sinal de que o trabalho da Agência, que parecia tão promissor nos primeiros anos do governo Lula, acabou descambando nos últimos tempos). Nação Palmares era um documentário hipermidiático, que buscava tirar o melhor proveito de cada forma de se contar notícia. Quem quiser imaginar um pouquinho melhor como isso funcionava, é só dar uma olhada no “making off” feito pelo Deak.

Outro projeto muito bacana de documentário digital é o Out My Window, uma reportagem que envolveu gente no mundo inteiro. Em uma série de vídeos, pessoas falam sobre os vários aspectos de se viver em prédios em uma grande cidade, principalmente do sentido comunitário que isso envolve – ou, ao menos, deveria envolver. Out My Window poderia ser um documentário tradicional, de 90 minutos, tempo total dos vídeos apresentados. Seria lindo e impactante, porque as histórias propiciam isso. Mas, ao invés de se contentar com a tradição, os autores acharam melhor nos permitir encontrar nossos caminhos, decidindo em quais apartamentos vamos entrar e que parte da vida dessas pessoas queremos saber. Os autores chamam de “documentário 360º”. Seja qual for o nome, é uma experiência riquíssima como só a internet pode nos proporcionar.

Podemos confiar no jornalismo online?

Alec Duarte é uma das pessoas que mais entende de jornalismo online no Brasil. Acompanho seu blog, o Webmanário desde que me entendo como um ser jornalístico e me interesso pelos futuros dessa profissão. Na última semana, Alec deu um grande furo, sobre a saída das Organizações Globo do Facebook, para tentar barrar a perda de audiência que vem sofrendo para a rede social. O assunto virou polêmica e teve toda a repercussão que merecia.

Como efeito colateral, porém, muita gente começou a questionar a notícia, algo que muito dificilmente veríamos se a informação tivesse sido publicada em um jornal e não em um blog. Alec teve até que escrever nova postagem defendendo que jornalismo é jornalismo em qualquer lugar – desde que seja feito com esmero.

Concordo plenamente com ele. Mas acho que não é a toa que existe toda essa desconfiança em torno do online. Muitos blogs já deram barrigadas fenomenais, por ai. Até mesmo gente grande e respeitável. Essa desconfiança por parte do leitor, portanto, chega até a ser saudável. Muito mais saudável do que quando aceitávamos tudo o que o papel nos entregava sem qualquer discussão. Temos sim que questionar nossos jornalistas e a qualidade da informação entregue por eles. Isso é muito diferente de pedir para que fontes sejam reveladas (o que chegaram a fazer com Alec). Com o tempo, vamos vendo em quais blogueiros podemos confiar e quais são meros repassadores de boatos – no caso do Webmanário, os anos que acompanho o blog já me fizeram confiar na história. Assim, vamos construir blogs melhores, feitos por jornalistas melhores e com leitores melhores. Todo mundo vai sair ganhando.

Jornalismo ou morbidez?

Como sempre acontece em casos assim, a cobertura jornalística das explosões em Boston tem causado polêmica. Quando se envolve a vida de tanta gente, às vezes fica difícil para o jornalismo não escorregar para a morbidez – e às vezes é até fácil, mas não nos esforçamos o suficiente para escapar dessa armadilha. É justamente disso que muitos espanhóis tem acusado o jornal El País, um dos mais importantes do mundo. Nas redes sociais, começou um forte movimento de reação logo depois que o jornalão espanhol publicou a foto de um homem que perdeu a perna durante a maratona.

No blog 233grados, quem faz a defesa da atitude do El País é Carlos Salas, ex-editor-chefe da editoria de Internacional do El Mundo. Segundo ele, em algumas situações, o jornalismo tem até a obrigação de apresentar imagens fortes:

É o debate que sempre surge nesses casos. (…) Quando fui editor-chefe da editoria de Internacional do El Mundo, me deparei com muitas imagens parecidas e piores e sempre tínhamos dúvidas se era conveniente publicá-las. (…) A OTAN interveio em 1999 na Iugoslávia graças a imprensa ter publicado fotos espantosas do massacres que estavam sendo cometidos contra os kosovares. (…) A opinião pública se converte em uma enorme força de pressão aos governos quando conhece esses dramas, o mesmo que aconteceu na Somália, na Chechenia e em Ruanda

Eu, particularmente, concordo com a visão de Salas. Acho, porém, que nem todo caso justifica essa publicação. Nas explosões de Boston, por exemplo, não temos nenhuma guerra em curso que a publicação de imagens possa ajudar a frear. É exatamente o mesmo que aconteceu na cobertura do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria. Não havia qualquer necessidade de se montar uma cópia fiel da boate ou de se contar quantos anos de vida foram desperdiçados pela tragédia. Nesses casos, o que resta é somente a morbidez.