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Arquivo da Categoria ‘Crônicas e Contos’

A velha

Era uma velha reclamona. Daquelas que até a beleza de um dia ensolarado era razão suficiente para uma infinidade de resmungos. Antes mesmo que abrisse a boca já era possível ver o quanto era infeliz. Não sorria nunca e as rugas da cara não pareciam marcas de sabedoria. Ninguém tinha coragem ou vontade de perguntar sobre seu passado. Certamente não era das melhores histórias para se ouvir e era até provável que ela não quisesse contar. O cabelo tinha um branco amarelado, assim como aquelas roupas que já foram brancas um dia. Era uma velha descuidada, que já tinha desistido da vida há muito tempo – provavelmente antes mesmo de ser velha.

Certa vez, estava em um ponto de ônibus. Tinha que ir para o centro da cidade resolver alguma questão da aposentadoria. O ônibus demorava para passar e ela resmungava a todo momento. Queria que alguém interagisse, para que pudesse dar ainda mais força ao seu lamento. Era difícil ser velha. Nem reclamar conseguia fazer direito. Se fosse uma moça e bonita a resmungar sobre a vida, o mocinho do lado já ia ter dado alguma atenção. Parou de reclamar do ônibus e começou a reclamar da vida. Quase sempre esse era seu roteiro. Começava com algum assunto específico e terminava na própria existência.

Estava no meio de um desses lamentos sobre as dores do corpo e da alma que acompanham a velhice, quando sentiu as primeiras gotas. O ponto era daqueles descobertos e só restou a ela choramingar pela falta de um guarda-chuva. O último tinha quebrado em um temporal e o penúltimo tinha sido roubado no banco. Dos outros já nem se lembrava mais. Pelo menos se o prefeito fizesse um ponto de ônibus coberto, uma mulher da minha idade não ia ter que ficar aqui tomando chuva.

Um homem, que não era velho, mas era mal humorado, sugeriu que velha voltasse para casa, ao invés de ficar reclamando. Ela deu de ombros. Não ia voltar para casa. Tinha que ir para o centro resolver o problema do INSS. E ninguém tinha nada a ver com isso.

Em meio ao discurso que ela fazia para si e para quem quisesse ouvir, a chuva começou a aumentar. Os pingos mais grossos e fortes, daquelas pancadas típicas de verão, pareceram atingir a velha em cheio. Ela interrompeu o discurso pelo meio e, apoiada em uma mureta, começou a chorar. Ninguém teve a coragem ou a vontade de perguntar o que estava acontecendo. Todos olhavam com cara de espanto aquela velha, que há pouco era tão forte e virulenta, se desmanchar em lágrimas mais grossas que a chuva. Concluíram que era só mais um mal da velhice. Sinal claro de senilidade.

O que ninguém imaginava era que quem chorava não era a velha. Em seu lugar estava uma moça. Talvez a mais jovem de todos ali. Debaixo daquela mesma chuva ela tinha aprendido o que era um amor proibido. Foi sob aquela chuva que ela se entregou. Se lembrava tão claro que nem parecia fazer quase setenta anos. Aquela chuva tinha garantido o momento mais feliz de sua vida – talvez o único. E por isso não havia qualquer contradição em agora ela chorar de tristeza sob as mesmas gotas. Foi aquela chuva que marcou o fim da moça e o começo da velha.

Quando a chuva parou – bem mais rápido do que em sua memória de mocinha – ela se desencostou da mureta. Olhou para todos com a cara fechada de sempre e entrou no primeiro ônibus que apareceu – achando que, se ele não fosse para o centro, pelo menos iria para longe daquelas lembranças.

 

Vida de celebridade

Queria ser famosa. Não importava a que custo. Simplesmente queria ser famosa. Nunca pensou bem se tinha alguma vocação. Não importava muito se era como modelo, atriz, política ou cantora. O que importava era que os outros se interessassem pela sua vida.

Nunca entendeu bem como não fazia sucesso. Seu dia a dia era muito mais interessante do que o de muita gente que circulava por aqueles sites de celebridades. Fazia muito mais do que atravessar a rua ou tomar água de coco na praia. Mas mesmo assim ninguém queria saber sobre ela. Nem mesmo a mãe, o pai ou o namorado. Todos eles fingiam se interessar, mas, no fundo, nutriam um desdém completo por ela. Pensavam que era burra. Achavam que exagerava em tudo o que fazia. Quando fosse famosa e aparecesse no programa do Faustão, com certeza todos eles dariam entrevista dizendo o quanto acreditaram em seu talento e apoiaram cada passo. Tudo mentira. A única que acreditava em si mesma era ela.

Passava os dias pensando no que poderia fazer para ficar famosa. Big Brother talvez fosse a melhor opção, mas ano após ano eles rejeitavam sua fita. Podia armar algum escândalo ou fazer algo inusitado, mas queria ser mais do que Geisy ou a peladona de Congonhas. Queria ser famosa de verdade.
Enquanto não encontrava o caminho, fingia já viver a fama. Usava a internet para reclamar dos invejosos e dizer o quanto era querida por tanta gente. Nas redes sociais, era mais bonita, gostosa e feliz do que pessoalmente. Aquele era seu grande palco. O público era pequeno, mas servia de ensaio para os dias de brilho que estavam por chegar.

Com o tempo, foi se convencendo do que via no próprio Facebook. Estava certa de que já era conhecida. Resolveu que só ia sair para a rua de óculos escuros – seu disfarce. Encarava qualquer olhar ocasional como um reconhecimento. E chegou ao ponto de fazer tchauzinho para as pessoas na rua. E quem dissesse que estava ficando louca é porque queria estar no seu lugar.

Não demorou muito e os sintomas foram piorando. Contratou um assessor de imprensa e um maquiador próprio. O primeiro bombardeou os sites de celebridades com notinhas sobre ela. Contava as novidades do namoro, as noitadas incríveis e os planos futuros. O segundo fazia a produção para as fotos do Instagram. Não podia correr o risco de aparecer menos bonita em uma ou outra imagem.

Logo o que era sonho passou para o mundo real. Ela era uma celebridade. Sub, mas celebridade. Não sabia bem definir o motivo da fama, mas não importava. Ficou encantada com a nova vida. Até o dia que reparou que absolutamente nada tinha mudado.

 

Só mais um sonho impossível

Foi só quando o sol começou a dar os primeiros sinais de que ia nascer que ele se deu conta do que tinha acontecido aquela noite. Fazia praticamente cinco horas que estavam sentados na areia. E aquele fim de festa era melhor do que a festa em si. Muito melhor.

Em menos de três horas ia pegar o voo de volta para São Paulo. Depois disso, talvez nunca mais encontrasse aquela garota. Não que fizesse questão de vê-la novamente. Não seria a primeira vez que, depois de uma longa noite juntos, ele deixaria alguém para trás, em meio a promessas de telefonemas que jamais aconteceriam. Essa era, aliás, sua prática padrão. Não era, portanto, aquela garota que o encantava. Ela era linda, como muitas outras com quem ele já tinha estado. Não podia reclamar da vida. Tinha sorte com mulheres – e costumava dizer que elas também tinham sorte com ele.

O que o deixava triste de ver aquela manhã nascendo era justamente a sensação de liberdade que a noite trouxe como brinde. Estar sentado na areia com uma quase desconhecida, sem se importar com qualquer tipo de julgamento era quase um sonho. Tudo combinava para um cenário ideal. E ele não queria abandonar isso de jeito nenhum. Gostava da areia em seus pés. Gostava dos primeiros raios de sol. Gostava daquela brisa que só o Rio de Janeiro tem. Gostava também do beijo da carioca.

O que mais gostava, porém, era o conjunto de tudo isso e o significado que ele dava para essa união de fatores. Ter o direito de não pensar no trabalho por alguns instantes. De não pensar na vida por aqueles mesmos instantes. De deixar que as coisas acontecessem enquanto, para ele, nada acontecia. Foi ao reparar que tudo ia ter que voltar a acontecer para ele também que começou a sentir uma angústia. Queria parar o tempo mais um pouquinho.

Sabia que era impossível realizar esse sonho, assim como era impossível realizar qualquer sonho de liberdade. Olhou de novo para o céu e notou que o sol já estava em seu devido lugar. Pela primeira vez desde que sentou na areia olhou para o relógio. Faltavam duas horas para o voo. Ainda ia ter que voltar para o hostel, tomar um banho e terminar de arrumar a mala. Resolveu que nunca ia conseguir fazer isso a tempo. A resolução foi tão firme que se deitou mais um pouco na areia e, antes que o mundo real voltasse a chamá-lo, decidiu viver um pouquinho mais do sonho impossível – pelo menos até o próximo avião voar para São Paulo.

 

Amor paulistano

Ela estava perdida. Em todos os sentidos estava perdida. Quando desceu do avião, se tocou de que não tinha ideia de para onde deveria ir. Pior que isso. Não falava a língua estranha daquelas pessoas estranhas que pareciam andar meio desatentas, tropeçando umas nas outras. Aquele foi o primeiro momento em que se perguntou o que estava fazendo ali. O primeiro de muitos. Em cada um deles encontrou uma resposta tão furada quanto convincente, levantou a cabeça e seguiu. Em geral, essas respostas envolviam um sentimento que estava mais para difícil de explicar do que para óbvio. Estava lá por amor. Quando soube que podia perder para sempre o homem de sua vida, ela não pensou muito antes de correr para o aeroporto e pegar o primeiro avião que partisse para São Paulo. Fez como se pegasse um ônibus de casa para o trabalho.

Antes que fosse vencida pelo susto de estar naquele lugar estranho, tomou a decisão de fazer o que parecia ser mais óbvio. Em 27 anos de vida, nunca tinha viajado para fora de seu país, mas morar em Nova York tinha ensinado que, na dúvida, a melhor coisa a ser feita é seguir a manada. Seguiu e se deparou com uma fila de gente que, uma a uma, entrava naqueles carros brancos. Apesar da falta de cor, as plaquinhas em cima logo fizeram com que ela percebesse que eram taxis. Ótimo. Não sabia ainda para onde queria ir, mas o motorista certamente conheceria um hotel. Entrou na fila e assim que chegou sua vez, pediu para ser levada a um hotel bom e barato. O taxista fez cara de ponto de interrogação e só então ela se relembrou que a Torre de Babel já tinha caído há muito tempo. Tentou a mímica, misturada com um pouco de espanhol aprendido com uma empregada velha que trabalhou na casa de seus pais. Funcionou. O carro finalmente começou a andar e, quase uma hora depois, estava parada na frente de um hotel.

Ficou aliviada quando descobriu que a atendente falava inglês. Pediu um quarto e contou seu drama. Todos os detalhes. Falou que tinha saído dos Estados Unidos atrás de um sujeito do qual não sabia quase nada. A recepcionista do hotel se solidarizou com a história. Viraram quase que amigas. Entre um cliente e outro, conversavam sobre amores passados, presentes e futuros. A atendente prometeu que ia ajudar a gringa a achar o amor. No fundo, mais do que torcer para achar o sujeito, rezava para que promover o reencontro valesse a pena. Já tinha se apegado àquela garota e estava com medo de que ela se decepcionasse. Se isso acontecesse, de alguma forma, a recepcionista se sentiria culpada. E de culpas já bastavam as que eram realmente suas.

A moça não sabia quase nada do amado. Só que o nome era Wagner. Que morava em São Paulo. Que tinha ido aos Estados Unidos há menos de um mês, segundo ele para uma reunião de trabalho. Disse que era executivo de uma multinacional, mas ela nunca acreditou muito nessa história. Achava mais provável que ele fosse um brasileiro comum, desses que faz algum sacrifício para conhecer Nova York.

Não sabia por onde começar a procurar, mas tinha que descobrir alguma forma. Uma viagem daquelas não poderia ser em vão. Com a ajuda da amiga-recepcionista, tentou se lembrar de detalhes. Talvez uma frase que não fizesse muito sentido para ela servisse de referência para a outra. Em algum momento, ele comentou algo sobre uma feira de arte. Disse que gostava de ir lá aos fins de semanas. Que era um dos melhores lugares para se comer coisas típicas do Brasil a um preço justo. A recepcionista pensou que pudesse ser a Benedito Calixto. Prometeu levar a moça até lá no próximo sábado.

Enquanto esperava a chegada do tão esperado dia, ela resolveu conhecer um pouco mais de São Paulo. Sempre sob orientações da amiga, andou pela Paulista, viu as vitrines da Oscar Freire, correu no Parque do Ibirapuera e rezou na Catedral da Sé para reencontrar seu grande amor.

Na noite da véspera, como que para comemorar o sucesso garantido do dia seguinte, as duas amigas foram à Vila Madalena. Foi em um bar de samba que, pelo mais mero acaso, a americana encontrou o amor de sua vida. Não era aquele que tinha conhecido em Nova York, mas essa busca, de repente, ficou sem qualquer sentido.

Paixão de elevador

Já estava pronto para sair de casa quando a mãe, como sempre, pediu que arrumasse o cabelo. Deu uma passada de mão e com uma cara de pouquíssimos amigos disse que não ia encontrar o amor da sua vida na rua. Estava certo. Antes mesmo de chegar na rua, ainda no elevador, viu a mulher mais linda do mundo abrir a porta e entrar. Se arrependeu de não ter arrumado o cabelo. Se arrependeu de estar vestido com aquela roupa. Queria parecer mais descolado, mas era tarde demais.

Nunca tinha visto aquela moça por lá. Tudo nela era incrível. O cabelo ruivo, do jeito que ele gostava. O vestido, com um pequeno ar de desleixo. A cara de quem gosta de ser livre e fazer o que bem dá na telha. Queria puxar papo, perguntar o nome, descobrir quem era e o que fazia ali. Estava na torcida para que fosse uma vizinha. Que morasse sozinha. Já se viu de mudança para o quarto andar. Será que namoro entre vizinhos dava certo? Com ela, com certeza daria.

O problema é que ele nunca tinha conseguido fazer essas aproximações inesperadas. Morria de vontade de se apaixonar no metrô, mas nunca teve coragem de começar a conversa com as hippongas maravilhosas que encontrava na Linha Amarela. No elevador, então, era pior ainda. Se não desse certo, se passasse vergonha, ele corria o risco de reencontrar sua musa inúmeras vezes e não saberia onde esconder a cara.

Mesmo ponderando todos esses pontos contra, resolveu agir. Precisava agir! E tinha que pensar rápido, antes que o elevador chegasse ao térreo. Viu que ela segurava um livro e perguntou se era bom. Naquele momento teve a certeza de ter tomado a melhor decisão de sua vida. Ela estava louca para começar uma conversa e também não sabia como! Era nítido o alívio na cara dela quando ele perguntou sobre o livro. Respondeu. Tomou coragem e perguntou o que ele estava lendo. O elevador chegou e eles continuaram lá, na porta, falando sobre os gostos literários.

Os sorrisos eram tímidos, mas deixavam bem claro as intenções. Os dois estavam felizes por terem começado aquela conversa. Se achavam muito interessantes, tinham muitas coisas em comum. Não foi difícil, então, que a conversa evoluísse dos livros para os filmes. Falaram dos favoritos, do último Oscar, do cinema nacional. Ela disse que ainda não tinha visto o último Tarantino. Ele fingiu também não ter visto e perguntou se ela iria com ele. Não que um Tarantino fosse o filme ideal para se começar um namoro, mas foi o que o destino ofereceu. Trocaram celulares e combinaram de se falar mais tarde, para acertar o cinema e a sessão.

Naquela noite, o filme foi ótimo, assim como o jantar que veio logo em seguida. E, em menos de seis meses, lá estava ele levando a escova de dentes e uma mala de roupas para o quarto andar.

Questão de vocação

Ainda estava no primeiro ano da faculdade quando, meio sem querer, descobriu sua verdadeira vocação. Estava passeando pelo centro da cidade quando entrou em um bar qualquer. Como sempre, não fez muita questão de escolher. Queria apenas um lugar para sentar em que pudesse acompanhar o movimento da rua e tivesse uma boa cerveja gelada para beber. Se tinha uma coisa de que gostava nessa vida era ver o movimento das ruas do centro. Sempre soube disso, mas nunca havia reparado que aquilo poderia ser uma espécie de dom. Foi só quando olhou para o velho sentado ao seu lado, tomando uma cerveja e olhando para os próprios pés que se tocou como tinha gente incapaz de reparar no alheio.

Ele não. Ao contrário do ser humano padrão, reparava muito mais no alheio do que em si. Não tinha vontade de fazer trabalhos voluntários na África e nem mesmo no morro que desafiava a burguesia do bairro onde nasceu. Seu negócio era outro. Não queria ajudar ninguém. Mal conseguia ajudar a si mesmo. O que o movia era uma curiosidade incrível sobre a vida do próximo – e sobre a do anterior também.

Apesar de curioso, nunca teve coragem de perguntar nada para ninguém. Via uma mulher passando em sua frente e criava toda uma história para ela. Mãe de dois filhos, tinha sido largada pelo marido e teve que, aos 37, começar a trabalhar para sustentar a casa sozinha. Arranjou um emprego de secretária e virou amante do chefe.

Talvez nada disso fosse verdade. Talvez ela vivesse um casamento feliz e nem tivesse filhos, tipo um comercial de margarina sem crianças. Ele não se importava com isso. Não queria saber a história real daquela mulher. Queria saber cada detalhe da história da mulher que criou. Aquela casada, sem filhos e feliz, era apenas um corpo para a divorciada que se envolveu com o chefe na esperança de garantir o futuro das crianças.

E, assim, fazia com cada um que passasse perante sua mesa. O careca era impotente. A novinha estava preocupada em como esconder do pai que já tinha transado. O moleque de boné e piercing procurava uma história fantástica para contar para os amigos sobre seu envolvimento com a loirinha do trabalho.

Sentado, naquela mesa suja de um bar sujo, ele finalmente reparou que era um tecedor de vidas. Criava sem dó nem piedade e para isso não tirava o olho da verdade de cada um que passava a sua frente. Não tinha um bloquinho de anotações porque nunca foi sua pretensão contar nada aquilo para quem quer que fosse. Eram histórias muito íntimas, que diziam apenas respeito àquelas pessoas – e a ele.  A primeira cerveja já estava quente quando ele finalmente se rendeu ao próprio dom. Tinha um pouco de medo do que estava fazendo, mas sabia que era o certo. A partir daquele dia, seria um observador profissional. Não que alguém estivesse disposto a pagar por esse tipo de trabalho – ele era realista demais para ter essa esperança. Seria um observador profissional voluntário. Todo dia acordaria cedo, assim que o primeiro bar aceitasse servir um copo de pinga ou de cerveja e ficaria lá até não ter mais histórias para descobrir. A jornada de trabalho seria longa e a recompensa financeira, nenhuma. Um verdadeiro sacrifício em nome de sua vocação. Quando tomou a decisão não tinha ideia de como ia sustentar o próprio dom. Foi para a faculdade trancar a matrícula e voltou para o bar decidir.

Hoje, quarenta e dois anos depois, ninguém sabe ao certo qual foi a fórmula que ele descobriu. O que se sabe – e isso eu descobri da mesma forma que ele, só de observar – é que ele está lá a todo esse tempo, feliz por ser um dos poucos com direito a seguir a própria vocação.

 

1 milhão de curtidas

Ele mal pôde se conter quando, finalmente, a página ultrapassou o primeiro milhão de curtidas. E tudo isso em menos de uma semana de trabalho. Nem tinha sido tão difícil. Para falar a verdade, até que foi fácil. Juntou uma meia dúzia de piadas manjadas, pegou uma outra meia dúzia que tinha visto em páginas de gente boa, mas que não fazia sucesso, e criou uma outra meia dúzia - as piores, para ser sincero. Divulgou a página para os amigos certos, que também do divulgaram para os amigos certos. Não podia negar que aquele boato de que tinha gente tentando tirar a página
do ar tinha ajudado muito também. Era tanto jornalista ligando que conseguiu até realizar o sonho de ser escroto com alguns sem sentir tanto peso na consciência. Era, enfim, uma subcelebridade. Recebeu umas duas ou três propostas de emprego. Nenhuma era da agência de publicidade gigante com que sempre sonhou. Mas pôde escolher uma que até oferecia um salário legal e onde ia ser tratado como celebridade. Antes de começar no novo trabalho, porém, já tinha um novo sucesso da internet e ele teve que explicar por que foi contratado a peso de ouro. Nunca conseguiu explicar – e logo já não conseguiria entender.

Sem qualquer lamentação

Entrou no ônibus cansado de um dia de trabalho em que nada deu certo. O chefe, aquela mula, parecia ter o prazer de atrapalhar tudo. Tinha dúvidas de se aquilo tudo era maldade ou a mais pura incompetência. Seja como for, sabia que a situação era insustentável. Mais cedo ou mais tarde ia ter que pedir demissão. Com dois filhos nas costas, era difícil fazer isso sem ter nada na manga, mas talvez fosse a única alternativa.

Estava com a cabeça longe, de pé perto da porta mais distante, quando não reparou a entrada de dois meninos no ônibus. Eles entraram por trás, como faz quem convence o motorista a dar uma carona ou a permitir que se venda alguma coisa aos passageiros. São poucos os motoristas que fazem isso hoje em dia, preocupados com a manutenção da própria existência. Aquele, porém, era um dos que põem o coração acima de si mesmo e permitiu que os dois moleques embarcassem pela porta de traz.

O mais novo não passava dos 9 anos. O mais velho, se tinha 12, havia feito aniversário por aqueles dias. O homem não percebeu a entrada dos dois e não percebeu também que o menor – que era o mais velho – carregava na mão um pandeiro.

Aquela dupla não ia vender balas, água e nem descascador de batata. Tampouco estavam lá apenas pela carona. Foi só na primeira gargalhada geral que o homem reparou na existência das duas crianças. Reparou também, logo de cara, o que eles estavam fazendo ali.

Zé Biscoito e João Bolacha, como se apresentaram pouco antes de homem saber de suas existências, eram repentistas. Apesar da pouca idade – ou talvez até por isso – os dois tinham o dom de encantar o público. Mal terminavam o verso e a risada se espalhava do motorista ao último passageiro. A coisa era tão contagiante que até a velhinha surda do primeiro banco e o menino com fones de ouvido sentado lá no fundo riam gostosamente – mesmo sem saber ao certo o que a duplinha tinha acabado de cantar.

A imagem e o gesto dos dois eram engraçados por si só. Eles tinham talento. Tanto que, ao se deparar com os dois, o homem desistiu de seus próprios problemas. Pensou em como devia ser sofrida a vida daqueles moleques e que mesmo assim eles tinham a capacidade de fazer um monte de gente gargalhar. Talvez fossem órfãos. Provavelmente não iam à escola. Não era pequena a chance de que apanhassem de um padrasto cruel ou que uma madrasta de contos de fada os obrigasse a estar ali. Naqueles poucos minutos, todos os preconceitos que existem contra a população que ganha a vida nas ruas serviram para tornar ainda mais terna a figura daqueles dois. Pobres meninos sofridos. Quem sou eu para reclamar de um chefe tosco quando há tanta gente com motivos tão grandes para reclamar que acaba se contentando em se conformar?

Se distraiu tanto na filosofia barata que acabou por deixar o ponto passar. Não protestou, como faria normalmente, e nem tentou culpar ninguém pelo próprio erro. Deu o sinal e desceu no próximo. A rua estava escura e quando correu para atravessar, ainda com a história que criou para os meninos na cabeça, não viu o carro que rasgava a pista. O impacto foi imediato e a morte, diferente de toda a vida, veio sem qualquer lamentação.

20 e poucos (versão masculina)

25, fevereiro, 2013 Gabriel Ferreira Sem comentários

(Se ainda não leu, recomendo também a versão feminina)

Outro dia ele leu em algum lugar que a adolescência agora vai até os 30 anos. Ficou feliz, porque significa que ainda tem alguma margem para morar na casa dos pais sem se sentir um total fracassado. Sabe que com essa idade o pai já tinha uma família para manter, mas sabe também que os tempos são outros. Só vai pensar em casar daqui uns 10 anos e não vai admitir jamais que esse seja um motivo de preocupação.

Hoje tudo vai bem – quase igual ao que sempre foi. Continua reunindo os amigos para ir na balada. É lógico que a turma diminuiu e mudou um pouco. Claro também que ele não tem mais o pique de pegar dúzias de garotas, mas precisa admitir que se sente o máximo cada vez que uma daquelas menininhas olha para ele com olhinhos de admiração. Nesse momento se sente “o cara”. Gosta disso e gosta das meninas novinhas. Tem um prazer especial com elas. Se sente bem sucedido, até um pouco superior. Mas quando para e pensa friamente, vê que não tem mais paciência para o papo que vem antes e depois da transa. Talvez seja por isso que as mais velhas estejam começando a chamar sua atenção. Outro dia se deu conta de que os três últimos rolos foram com garotas que já estavam beirando os trinta – e que, com elas, o jantar e o cinema eram tão bons quanto a foda em si.

O assunto parou quase que por acaso em uma mesa de bar. E, como sempre acontece em mesas de bar, trouxe muita polêmica. Ele não era o único a passar por isso, mas ainda tinham aqueles que não trocavam as novinhas por nada nesse mundo. “Talvez quando vocês tiverem 60 vão continuar procurando as de 18.” A teoria saiu da boca com a certeza e a naturalidade do psicólogo de boteco que ele sempre foi.

Os bares de agora, aliás, são quase iguais aos de antigamente. Com a diferença de que ficar mais velho trouxe lugares um pouco melhores como principal efeito colateral. A cerveja é mais cara, o povo menos animado e falta aquela sensação de liberdade que só conhecem os frequentadores dos verdadeiros botecos – e não daqueles barzinhos que ousam se chamar assim, apesar de venderem saquerinha de frutas vermelhas. Além disso, o povo da faculdade era muito mais animado do que essa galera do trabalho, que toda vez que se reúne prefere malhar o chefe do que falar de mulher – a não ser a estagiária gostosa do marketing, um assunto impossível de se ignorar.

A teimosia em continuar bebendo a boa e velha cerveja – intercalada às vezes com uma pinga artesanal-industrializada – tem começado a cobrar o preço. Não só a fatura do cartão é cada mês mais alta, como a barriga parece ficar cada dia maior. Vê as fotos do trote da faculdade e tem quase vontade de chorar ao voltar a encarar a própria pansa. Como um corpo pode mudar tanto em tão pouco tempo? Parece drama de mulherzinha e, por isso, o assunto só chega à mesa do bar na forma de brincadeira.

Mas já que o corpo pode mudar tanto e tão rápido, é hora de usar isso a próprio favor. Semana passada se inscreveu na academia. Em pouco tempo espera estar mais definido – e já ter comido pelo menos umas três daquelas menininhas que se intercalam naquele aparelho para melhorar a bunda.

O difícil é conseguir coordenar tudo isso com o trabalho. Esse é seu único drama e é ai onde moram suas únicas dúvidas. O chefe é um babaca e o serviço está bem abaixo de sua capacidade. Não fosse a prestação e o seguro do carro, já tinha largado aquilo há muito tempo. Sempre teve certeza de que, com essa idade, ia estar comandando uma equipe enorme. Talvez até tivesse a própria empresa – uma startup daquelas que deixa todo mundo com inveja da genialidade do fulano que pensou nisso. Para ser sincero, até já teve a ideia genial. O difícil é convencer alguém de que ela é assim tão boa. Não conseguiu investimento e nem o apoio de nenhum amigo para ser sócio. Às vezes pensa em vender o carro e apostar tudo na ideia, mas no fundo sabe que é uma roubada.

Sabe também que o tempo está passando e que a oportunidade de ficar rico está se perdendo. Em paralelo a tudo isso, tem que lidar com questões que, de jeito nenhum são um problema, mas que às vezes incomodam um pouco. Fica dividido entre toda a modernidade dos tempos em que mulher divide a conta e dá no primeiro encontro e a educação machista que não ensinou a lidar com nada disso.

Para esquecer que o tempo está passando, discute sobre futebol e joga videogame exatamente do mesmo jeito que fazia aos 13 anos – com a diferença que agora tem dinheiro para comprar os ingressos e jogos. Se pudesse escolher, voltava a ser criança e talvez até por isso comemore a possibilidade de prolongar um pouco a adolescência. Sabe que com 30, 40 ou 50 a cobrança será ainda maior e que não descobrirá jamais uma forma para lidar com isso. Logo depois de chegar a essa conclusão finge que nada está acontecendo e segue a vida.