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Arquivo da Categoria ‘Crônicas e Contos’

Daqueles pequenos grandes momentos

Ele, um daqueles loucos que larga o emprego para viajar pela Europa, quase que sem destino – em busca de um destino. Ela uma funcionária padrão – uma burocrata qualquer perdida nos corredores de uma empresa qualquer. Os dois, um casal sem passado e sem presente. Um casal provavelmente sem futuro – que, se houvesse, seria um daqueles horizontes sempre distantes, inalcançáveis. Quando se encontraram, foi a mais pura obra do acaso. Ele, em uma de suas viagens. Ela, no fim de um de seus expedientes sem fim. Por acaso ou por destino, pararam para fumar no mesmo lugar. Ela estava cansada, mas não resistiu quando cruzou seus olhos naqueles olhos tão negros, que mal podia ver na escuridão da noite. (Nunca tinha visto uns olhos tão escuros em toda sua vida.) Fingiu estar sem fogo e pediu por ajuda. Ele não entendeu. Não falava alemão, explicou em um inglês que ela demorou uns instantes para entender. Repetiu o pedido por um isqueiro, agora em inglês e ele finalmente pôde ver melhor o rosto dela, graças à chama que iluminou o espaço entre os dois. Gostou do que viu. Os olhos claros, entre o verde e o azul, a pele clara, o cabelo loiro. Não era o tipo de garota que geralmente o atraia, mas gostou do que viu.

A noite estava fria, como é de se imaginar quando se está num inverno naquele canto da Europa. Qualquer número positivo no termômetro seria uma decepção para ele. Ainda mais naquele momento, em que os menos alguma coisa eram o pretexto ideal para ficar mais próximo, mesmo que ainda fossem completos desconhecidos. Sentiu vontade de passar toda a noite com aquela garota. E esse sentimento, por mais que não fosse uma novidade, não era dos mais comuns para ele. Não naquele momento. Não naquela situação. Ao longo de suas andanças pela Europa, nos últimos três meses, não procurou por sexo em nenhum dos lugares por onde passou. Quando aconteceu, foi algo assim, um acontecimento ou uma bebedeira quaisquer. Houve uma belga em Paris, uma irlandesa em Barcelona e uma portuguesa em Roma. Naquele instante, relembrando as andanças no velho continente se deu conta de que só tinha transado nas cidades mostradas nos filmes europeus do Woody Allen – e nunca com uma nativa. Justo ele, que não entendia porque tanto endeusavam Woody Allen. Justo ele, que sempre se encantava com a beleza das mulheres locais, fossem quais fossem.

Naquele instante, relembrando suas aventuras no velho continente resolveu que iria quebrar essa regra imposta pelo acaso. Não iria transar em uma cidade de Woody Allen e, ao que tudo indicava, finalmente conheceria os prazeres de desfrutar de uma mulher em sua própria terra. Enquanto pensava em tudo isso, conversava quase despretensiosamente. Antes de qualquer movimento mais sério, preferiu confirmar suas impressões. Romper a tradição seria um sinal importante de que estava no caminho certo. Aquela viagem para a Europa tinha sido planejada para por rotinas a baixo, então não podia deixar que uma nova se criasse, mesmo que fosse por mera coincidência. Perguntou se Woody Allen já tinha filmado por ali. Ela riu, curiosa para saber como aquele velho judeu de Nova York conseguiria fazer um filme encantador em uma cidade que só tinha como encantos uma ou outra sede de empresas multinacionais – uma cidade mais fria que as temperaturas mostradas nos termômetros. Ele riu, fingindo achar aquele velho judeu de Nova York tão genial quanto ela parecia pensar.

Ela não entendia bem o que ele queria com aquela conversa toda. (Afinal, sem saber das últimas transas daquele maluco, seria impossível entender tanto interesse nos filmes europeus de Woody Allen, justo os mais chatos de todos.) Mas, mesmo sem entender, estava gostando do papo. Ou, talvez, mesmo sem entender, estivesse gostando do rapaz que conduzia o papo. Mesmo sem entender todo o inglês dele, conversavam como se tivessem sido alfabetizados na mesma língua. Mesmo sem entender aonde tudo aquilo ia dar, deixava as coisas rolarem.

Mais um pouco e ele perguntou se ela era nascida e criada em alguma daquelas ruas estreitas. Ela disse que vinha do outro lado da ponte, onde as ruas não eram tão estreitas, mas que era, sim, uma típica cidadã de lá. Parecia o sinal perfeito. E os sinais não se restringiam àquela bobagem de pôr abaixo aquela tradição de araque. Os dois tinham muito em comum. (Mesmo que isso não significasse quase nada.) Compartilhavam o desejo de conhecer todo o mundo. (Mas não há pessoa no planeta que não tenha esse sonho – ainda mais quando jovem.) Gostavam de comida japonesa. (Mas essa é outra espécie de obrigação do mundo globalizado.) Choravam pelos jovens mortos nas praças do Egito e da Ucrânia e tinham certo arrepio em pensar no poder onipresente dos Estados Unidos. (Como é de se esperar do espírito revolucionário de qualquer um que ainda não tenha feito 30.) Fingiam gostar de filmes e livros que nunca tinham visto e lido. (Tal qual todo ser humano faz no momento em que se sente interessado por uma outra pessoa.) E por ai seguiam, enumerando um tanto de gostos sobre os quais – fingiam não saber – era quase impossível de discordarem.

Para aquela noite fria. Para aquela conversa que começou graças a um pedido de mentirinha. Para aquela viagem maluca que ele fazia. Para aquele dia tão comum que ela vivia todos os dias. Para tudo isso, aquele momento era perfeito. Mas os dois estavam longe de serem perfeitos. Ele tinha medo de ofender a honra de uma moradora local. Não sabia quais eram os costumes da região e como seria interpretado se tentasse um movimento mais ousado. Ela tinha medo da fama de machistas dos homens brasileiros. Não sabia se ele ficaria ofendido se ela tentasse um movimento mais ousado.

Entre esses medos tão bobos, ficaram conversando por toda a noite. E poderiam passar muito mais tempo, não fosse o frio e a necessidade que ela tinha de voltar para casa antes do último bonde. Ela começou a olhar para o relógio e avisou quando faltavam dez minutos para a hora de partir. Ele caminhou com ela até o ponto em frente ao teatro. Ficaram por lá, conversando, pelos exatos dez minutos que ela disse que eles ainda tinham pela frente. Os últimos três foram de uma conversa muda, uma ausência de palavras entre quem ainda quer dizer alguma coisa, mas não sabe ao certo o que nem como.

Não estavam apaixonados. Ela não acreditava em amores a primeira vista. Ele não acreditava em amores. Não estavam apaixonados, mas havia alguma coisa entre eles. Ia além daquela conexão de obviedades, daquela vontade de agradar ao outro, da vontade mútua de transarem. Não era paixão, mas não era só tesão. Não era nada. Mas tinha potencial para ser aquilo tudo.

Quando o bonde chegou, ela entrou e acenou pela janela. Sabia que muito provavelmente nunca mais veria olhos tão pretos em toda sua vida. Talvez dentro de alguns dias ou semanas, no máximo, não se lembrasse do rosto daquele rapaz com quem havia passado as últimas horas conversando. Poderia não se lembrar da boca ou do nariz. Mas se lembraria, sem sombra de dúvidas, daqueles olhos. Ela não acreditava em amores a primeira vista, mas jamais se esqueceria do momento em que viu aqueles olhos.

Ele se lembraria dela, do rosto iluminado pelo isqueiro, da forma como ela segurava o cigarro e do jeito que ela ria nos momentos mais inesperados. Ficaria na cidade apenas durante a próxima manhã, mas prometeu para si mesmo que voltaria num futuro muito próximo. Era uma questão de honra reencontrar aquela garota de quem sequer sabia um e-mail ou telefone. Ele não acreditava em amores, mas não desistiria enquanto não tivesse certeza se ela era ou não a mulher escolhida para passar o resto de sua vida ao seu lado. Prometeu voltar. Mesmo sabendo que era uma daquelas promessas feitas só até o próximo pequeno amor.

 

O beijo

Sentiu uma vontade louca de beijar aquela boca e, antes mesmo que notasse isso, já estava fazendo a mágica que torna desejo em realidade. Nunca tinha feito aquilo na vida. Não que fosse seu primeiro beijo. Mas era o primeiro daquele beijo. Aquele era um beijo diferente. Havia um sentimento diferente ali. Não era tesão, carinho ou amor. Já conhecia todos esses e em nada eles lembravam o que sentia agora. Talvez o leitor não consiga entender o que estou falando. É realmente difícil para quem nunca viveu essa sensação de que tudo encaixa com uma perfeição sem igual, de que não há nada no mundo além daquele beijo, de que aquele momento tão especial nunca vai se repetir – não daquele jeito. Não é que aquela pessoa seja perfeita, única ou especial. A perfeição é do momento, não das pessoas. Como naqueles fatos que acontecem uma vez a cada dois ou três séculos e que a próxima geração mal toma conhecimento sobre sua existência. Um cometa, o nascimento de um grande líder, a invenção de uma nova estética… Apenas quem está lá, naquele momento, sabe identificar que algo de muito especial está acontecendo – e que esse fato independe de tudo que não seja o cosmos, a força superior, Deus, ou qualquer outro nome que você prefira.

Aquele beijo era, definitivamente, um evento cósmico. Bocas que nunca antes tinham se encontrado, agora se encaixavam com perfeição, como se conhecessem em detalhes os detalhes uma da outra. Os dois, em uns tantos momentos, chegaram a perder o fôlego, mas fizeram questão de continuar. Não havia motivos para se interromperem. Era um beijo longo, longuíssimo, mas não daqueles beijos feios, que chegam a deixar quem está do lado constrangido. Era um beijo longo, longuíssimo, mas de uma espécie rara, que apenas revela aos demais que, ali, há um algo de diferente. Ninguém sentiu vontade de interromper o casal ou de sugerir que eles buscassem um quarto ou um motel. Não era um beijo pornográfico. Longe disso.

As mãos dela corriam pelas costas dele, como se procurassem por lá um conforto ainda maior. As mãos dele corriam pelos cabelos dela, como se segurar aqueles cachos fosse a única forma de manter a magia para sempre. De resto, os corpos estavam parados. O mundo todo se movendo ao redor dos dois e eles lá, sozinhos, únicos no mundo e em seus pensamentos. Sem família, trabalho ou contas para pagar. Sem comunismo ou capitalismo. Sem trânsito ou planos para as férias. Sem nada. Absolutamente nada.

Como se fossem dois monges budistas no auge da meditação, tinham a cabeça vazia. Agiam quase que totalmente por instinto e era isso que fazia aquele momento tão mágico. Não precisavam se preocupar em ser alguma coisa. Eram eles – e talvez fosse isso o que fazia daquele momento algo tão especial. Ou talvez não, já que nessa ideia há uma boa dose daquela psicologia barata que nos faz acreditar que nunca queremos ser o que somos de fato – ou algo assim. Na verdade, o que fazia daquele momento algo tão especial é que tudo estava certo para que aquele momento fosse algo tão especial.

Se conheciam há algum tempo, mas não podiam dizer que eram amigos. Não nutriam expectativas um com o outro. Nunca sonharam com aquele beijo. Não sabiam – e naquele momento era a última coisa que queriam saber – o que aconteceria no momento seguinte. E não tinham noção de nada disso naquele instante.

Talvez um poeta dissesse que eram um só corpo. Mas isso não passaria dessas bobagens que os poetas costumam dizer para encantar a gente e nos fazer sentir que nunca viveremos um amor verdadeiro. Eles não. Não eram um só corpo. Eram dois corpos entrosados, felizes de estarem um com o outro.

Ninguém sabe ao certo quanto tempo levou até que aquele beijo acabasse. Para quem olhasse de fora, foi tempo o suficiente para invejar. Para os dois, não houve medida de tempo. Beijaram pelo infinito e um pouco além. Todo o infinito é pouco quando nos encontramos no beijo de outra pessoa. Quando finalmente se soltaram, se olharam e riram. Riram com o mesmo entrosamento do beijo, mas foram perdendo a força até que pararam e se concentraram apenas na boca um do outro. Não conseguiam desviar os olhos dos lábios do outro. A ideia de repetir o feito era tentadora, mas dava medo. Jamais alcançariam aquele ponto de novo. Ela tomou a iniciativa – sempre são elas que tomam a iniciativa. Virou e foi ao bar pegar uma bebida. Quem sabe outra noite…

 

O inconforme

De vez em quando tinha uma vontade louca de levantar e sair andando. A vontade vinha do nada e teimava em não passar. Era como se a alma fosse sair sozinha do corpo caso ele ficasse no mesmo lugar. Normalmente isso acontecia quando alguém de quem não gostava vinha puxar conversa. Era uma espécie de instinto de sobrevivência. Fugir era a melhor e a única opção para evitar ouvir bobagem. O problema era quando, apesar de toda a vontade, de toda a força que sua alma fazia, de toda a certeza de que não deveria continuar no lugar, restava apenas uma espécie de resignação. Tinha que permanecer sentado, fingindo ser um moço comportado e atencioso.

Nesses momentos engolia seco. Nesses momentos, que eram quase todos os momentos, reclamava para si mesmo de cada uma das convenções humanas. Não entendia qual o motivo que o obrigava a se fingir interessado pelo que não era. Sua alma, livre como todas as almas, queria perambular por ai. Ver coisas novas. Conhecer gente e lugares interessantes. Aprender. Viver. Ainda era muito cedo para que sua alma fosse condenada a um único lugar. Para ele, alma e corpo parados era sinal de morte. Ainda tinha tantos anos pela frente e mesmo assim era obrigado a estar lá, fingindo que aquelas conversas sem sentido e apelo eram a coisa mais cheia de senso e interessantes que já tinha ouvido.

Desde pequeno aprendeu que, por mais que fossem chatas e nos machucassem, as convenções humanas existiam para serem cumpridas. Sem elas, o mundo não seria mundo. Sem elas, ficaríamos perdidos entre uma barbárie e outra. Aprendeu, mas não se conformou. Não via problemas em um mundo sem regras. Não que se considerasse anarquista. Não tinha qualquer tendência política. Ser de esquerda ou de direita era uma das regras que fazia questão de não cumprir. Seus ideais giravam única e exclusivamente em torno da ideia de sua própria liberdade.  Os outros poderiam continuar suas vidas medíocres, seguindo suas regras medíocres, comendo suas comidas medíocres, ouvindo suas músicas medíocres, mantendo suas conversas medíocres. Fazendo tudo isso tranquilamente sentados, como se fosse natural à alma ficar ali sentada.

Era incapaz de entender como as pessoas não tinham aquele comichão de se levantar e sair andando a cada conversa mais chata. Por mais que não quisesse, no fundo queria entender o que se passava na cabeça delas e o que as fazia ser tão conformadas. Não sabia se queria ser igual, mas queria ao menos fingir melhor que se interessava pela conversa dos outros. No fundo, por mais que imaginasse o contrário de si mesmo, era um grande egoísta. Tentava prestar atenção no que os outros falavam, mesmo sabendo que todo o esforço seria em vão. Acenava com a cabeça em sinal afirmativo, seja lá qual fosse a besteira que estivessem dizendo. Era um truque tão primário quanto eficiente. Um simples aceno de cabeça tem a vantagem de não querer dizer nada, mas dar ao outro o conforto de estar sendo entendido.

Mas ele tinha certeza de que, mesmo com todos os artifícios, os outros sempre sabiam que ele não estava lá. Eram raras as vezes em que ele conseguia dar continuidade à conversa. Sem ouvir a pergunta, não conseguia apresentar uma resposta satisfatória. Na maioria das vezes tentava, mas a situação era sempre tão constrangedora que talvez fosse até mais educado caso ele simplesmente cumprisse seus desejos mais íntimos, se levantasse e deixasse cada uma das salas em que entrou. Assim, ao menos, deixaria clara a sua ausência.

Apesar de todo o inconformismo, porém, era um covarde e fazia questão de continuar ali. Não saberia lidar com os dedos apontados, com o zum zum zum maledicente, com os xingamentos mentais cada vez que encontrasse um de seus abandonados. Preferia a fama de distraído, de egocêntrico, de burro do que o de inconforme. No fundo, toda a sua revolta não era por não poder subverter cada uma das regras da humanidade. O que o deixava aflito era justamente não conseguir cumpri-las. Ou achar que não conseguiria. Queria ser como todos os seus amigos. Queria ser só mais um Homer Simpson, mais um mocinho qualquer de novela.

O que ele não sabia – e o que ninguém sabe sobre os outros – é que tudo isso era uma grande ilusão. Pelos mesmos ou por outros motivos, seus amigos também tinham vontade de libertar suas almas. Seus amigos também queriam entender como era possível alguém aceitar tudo aquilo. Seus amigos também queriam entender como ele conseguia se concentrar e participar de uma conversa por mais de dois minutos. Só reparamos em nossas inconformidades e por isso não somos capazes de notar que o mundo, na maior parte ou em todo o seu tempo, é um grande diálogo de surdos, mudos e cegos, incapazes de ver ou transmitir qualquer sinal que faça sentido ao outro.

No dia em que ele percebesse isso, não seria mais feliz ou mais triste do que já era. E por isso talvez, nem valesse a pena perceber. Se sentir especialmente inconforme talvez fosse sua grande vitória.

 

A ruiva

Só quem já se apaixonou por uma ruiva sabe o quanto isso é difícil. E ele já estava calejado o suficiente para saber. Foi no colégio – quando ainda não tinha noção de absolutamente nada e descobria absolutamente tudo – que soube do poder daqueles cabelos com cores difíceis de descrever – e impossíveis de se imitar com tintura. Sofreu muito, como acontece em todo primeiro amor. O sentimento era tão intenso que prometeu jamais, em toda a sua vida, até o último dia e enquanto ainda tivesse forças se apaixonar por outra ruiva. Dizem que Lucille Ball, a ruiva mais famosa dos anos cinquenta, tinha uma frase sobre o direito de todo homem se apaixonar pelo menos uma vez na vida por uma linda ruiva. Lucy advogava em causa própria, mas tudo bem. Assim ficaria decidido: se uma vez era o suficiente, ele já tinha preenchido a cota.

Mal se lembrava da origem dessa promessa quando conheceu Vanessa. A apresentação foi formal, típica de novos colegas de escritório. Ela sentaria a seu lado e parecia ser muito gente boa. Nada demais. Apenas gente boa. Não que isso fosse suficiente para quebrar todo o preconceito que sentia contra aqueles cabelos, mas já era um bom começo. Nos primeiros dias, trocavam apenas cumprimentos protocolares. Mas a coisa logo evoluiu para uma amizade. Ela tinha uma risada simpática, que sabia surgir na hora certa. Saber rir na hora certa e de um jeito simpático é uma qualidade que deveria ser mais valorizada, de tão rara que é. Os olhos eram espertos e sabiam ser irônicos. Ter olhos irônicos também não é para qualquer um. É preciso uma malícia natural, capaz de transmitir o tom certo apenas com uma mirada. Ela tinha essa malícia e – como toda ruiva – muitas outras.

De risada em risada e de olhar em olhar, a amizade se fortaleceu. Saiam para almoçar juntos e, nessas ocasiões, jamais falavam de trabalho. Essa era uma característica que ele valorizava bastante em colegas de escritório. A capacidade de só falar em serviço quando isso é realmente necessário é uma dádiva reservada a menos gente do que os sabem rir na hora certa e ser irônicos apenas com o olhar. Ele estava encantado por ela. Tinham muitas coisas em comum. Não gostavam dos mesmos livros, filmes ou música. Não torciam para o mesmo time. Não sonhavam com o mesmo futuro. E mesmo assim tinham absolutamente tudo em comum. As conversas rendiam horas. Se sentiam bem quando estavam juntos. Evitavam os demais colegas para ficarem sozinhos.

Talvez o leitor já esteja imaginando que não demorou para eles caírem em um  amor irreversível e que essa seja só mais uma história de final rápido e feliz. Não foi isso que aconteceu. Eduardo e Mônica é um casal que funciona apenas nas músicas de loucos como Renato Russo ou na cabeça de apaixonados, o que dá quase na mesma. Eles sabiam que deveriam se aproveitar apenas da amizade e que mais do que isso era procurar uma forma de acabar com tudo. Não queriam isso. Não podiam tolerar a ideia. Nem na maior das bebedeiras jamais trocaram um beijo sequer. De vez em quando até se imaginavam juntos e tinham uma amizade tão forte que falavam do assunto um com o outro com a maior naturalidade. Com a mesma naturalidade de que falavam de outros amores, maiores e menores, fixos e ocasionais. E isso era mais uma prova de que jamais dariam certo juntos. Se conheciam demais.

Como costuma acontecer em relações de amizade entre homens e mulheres, ele tinha muito mais interesse nela do que ela nele. Mas não importava. Sabiam lidar com a situação. Deixavam que os outros falassem e não se importavam com a maldade alheia. Se bastavam. E era isso que importava.

Chegou um momento, porém, em que sentiam falta de algo mais. Para que não precisassem encontrar esse algo mais um com o outro, resolveram se ajudar. Ele apresentou um amigo a ela. Em retribuição, ela incentivou um relacionamento entre ele e sua irmã. Formavam aqueles tipos de casais que fazem tudo em parceria, muito mais um quarteto do que dois pares. Não havia cinema, jantar ou festa a que não fossem todos juntos. A sincronia era tanta que os dois namoros acabaram na mesma data. Um casal não faria sentido sem o outro.

Depois disso, não demorou para que cada um começasse uma nova vida amorosa. Ela, com um antigo companheiro de faculdade – uma daquelas paixões mal resolvidas que todo mundo tem. Ele, com a amiga de um primo – uma daquelas paixões sem amor que todo mundo precisa ter. Calhou de os novos parceiros serem extremamente ciumentos. Foi natural então que acabassem tomando rumos diferentes. A amizade esfriou e acabou sem qualquer dor. Morreu antes que fosse morta.

Ela foi trabalhar em uma nova empresa e ele foi promovido para um novo setor. Como não tinham muitos amigos ou interesses em comum, era raro se encontrarem. Sentiam falta um do outro, mas nunca se deram conta disso. Quando ela casou, até pensou em convidá-lo para o casamento, mas soube que ele estava estudando nos Estados Unidos e deixou por isso mesmo.

Um dia, já quarentão, ele se pegou pensando que podiam ter sido um casal incrível. Não dariam certo, é lógico. Mas já que até a amizade, que parecia forte, teve fim, será que não teria valido apena fazer com que a relação fosse mais curta e mais intensa? Nunca teria a resposta para isso e nunca quis ter. Os caminhos que escolheram escreveram a história por si só. Talvez, se ele não tivesse conhecido aquela garota com cabelos e temperamento de fogo nos tempos de colégio, tudo teria sido diferente. Mas agora isso já não importava mais. Vanessa – com seus cabelos, sua risada e seu olhar – tinha deixado suas marcas. Assim como toda ruiva faz na vida de um homem. Dessa vez ao menos tinha sido sem sofrimento.

 

Um namorado para a amiga

A amiga já estava encalhada há um bom tempo e ela achou que, em nome dos anos de relação entre as duas, tinha obrigação de ajudar. Foi fuçando na lista de amigos do Facebook até lembrar de alguém que fosse bonito e simpático o suficiente para fazer a amiga feliz. A missão não era nada fácil. Os poucos não cafajestes que conhecia estavam quase todos comprometidos. A única exceção era ele. Não era tão bonito quanto a amiga merecia, mas era simpático e – diziam os boatos – muito bom de cama.

Resolveu que ia apresentar os dois. Conversou com ele primeiro. Queria saber se queria alguma coisa séria da vida ou se ainda estava interessado apenas na curtição. A maioria dos homens hoje em dia toma a decisão de se comportar como adolescentes até os 30 e poucos e ela não podia correr o risco de colocar sua amiga em uma roubada dessas. Já bastava a quantidade de roubadas em que a amiga tinha se metido sozinha. Ficou feliz quando ele disse que ele estava procurando alguém para assistir um filme num sábado a noite, sem peso na consciência por estar em casa. Uma peça rara.

Resolveu chegar ao ponto central da conversa com o máximo de cuidado. Ele não podia pensar que a amiga era uma daquelas solteironas desesperadas. Por mais que fosse verdade, não cairia bem passar esse tipo de imagem. Comentou que conhecia alguém muito interessante. Que os dois combinavam em tudo. Que gostavam do mesmo estilo de música. Que tinham lido os mesmo livros. Falou também que ia sair com a amiga no próximo fim de semana e perguntou por que ele não aparecia por lá? Sem compromisso. Conhecer a amiga e ver se ela era realmente tudo o que ele imaginava. Depois podiam se adicionar no Facebook, trocar mensagens por Whatsapp e ver o que o destino reservava.

Preferiu não comentar nada com a amiga. Talvez ela se sentisse ofendida ou, pior do que isso, obrigada a ficar com ele apenas para não passar a imagem de encalhada. Ele iria até a festa e lá ela cuidaria de fazer o meio campo.

Chegado o dia do grande encontro, as coisas saíram muito melhor do que o planejado. Antes mesmo que ele chegasse, a amiga engatou um papo com um cara incrível. Era bonito, charmoso e, ao que tudo indicava, boa gente. Quando o ex-futuro namorado da amiga chegou, ela foi logo contar o ocorrido. Achou que ele ficar decepcionado, mas, ao invés disso, ele abriu um sorriso. Seu interesse era outro. Não queria saber da amiga. Queria saber da outra. E assim foi. Conversaram durante por toda aquela noite.  E por todas as noites que vieram depois disso.

Cúmplices

Trocavam olhares com a certeza de que nunca mais se veriam e, por isso mesmo, se davam o direito de trocar sorrisos como se estivessem loucamente apaixonados. Não estavam e nem poderiam estar. Ela namorava. Ele tinha decidido que jamais se apaixonaria por ninguém. Mas a vida é feita de momentos assim, de pequenas paixões que começam e terminam exatamente no mesmo lugar. Às vezes é no metrô, outras na praia e há casos até em que isso ocorreu em um velório.

No caso deles não teve a velocidade do metrô, a leveza da praia ou a impertinência do velório. Se apaixonaram – e se desapaixonaram – em uma balada. A música era alta o suficiente para que mal conseguissem conversar. Não fosse assim, provavelmente teria sido muito difícil para se abandonarem no final daquela noite. Tinham muito em comum. Muito mais do que ela tinha com seu namorado e muito mais do que ele pensava ser possível ter com qualquer pessoa. Se tivessem ouvido o que outro falava, muito provavelmente se apaixonariam, mudariam os rumos de suas vidas e, no final, se decepcionaram. Ter tudo em comum não significa ter algo em comum. Tudo costuma ser muito pouco quando o assunto é o coração. Seriam um péssimo casal. Os dois tinham opiniões fortes e, por mais que fossem as mesmas, não estariam dispostos a serem comandados por ninguém.

Mas o que importa é que, durante aquela noite, foram um ótimo casal. Ela tinha a liberdade de quem estava em uma cidade desconhecida, com pessoas desconhecidas, e podia agir sem medo de que o namorado descobrisse no dia seguinte. Ele tinha a liberdade de quem faz o que bem entende, fingindo não se importar com a opinião alheia. Dançaram juntos durante horas, mesmo sem saber dançar. Até mesmo quando não havia música davam a impressão de continuarem dançando.

Quem olhasse a cena, podia imaginar que se conheciam há tempos. Eram cúmplices. O que ninguém sabia – porque as pessoas nunca sabem de nada – é que aquela era uma cumplicidade que só é possível entre quem não se conhece bem. A mais forte das cumplicidades. Uma que vem naturalmente.

No meio da noite ele disse que ia pegar uma bebida e nunca mais voltou. Ela até pensou em procurá-lo, mas agradeceu que aquilo tivesse acontecido. Ele, em casa, ficou aliviado por ter tomado a decisão certa.

 

As lágrimas

Tinha por hábito chorar a qualquer sinal de emoção. Nem sempre um choro sincero. Na maioria das vezes, na verdade, aquelas lágrimas nada mais eram do que o sentimento de uma obrigação social. Chorava por tudo e por todos e não sentia por coisa alguma e por ninguém. Era tão triste e encarava a vida com tanto desdém, que não considerava absolutamente nada digno de lágrimas reais. Nem seus próprios problemas eram capazes de umedecer seus olhos de forma sincera. Não agradava, porém, a ideia de que todos soubessem de sua frieza. E por isso fingia chorar. E ao pensar nisso – e só nessa hora – chorava com convicção. Cada lágrima que corria por suas bochechas eram, para ele, o símbolo de quanto sua vida era vazia. No fundo, sem que soubesse, chorava sua própria inexistência. Chorava a ausência de motivos para chorar.

Se acostumou a forçar as lágrimas desde pequeno e fazia isso com certa facilidade. Bastava alguém contar as primeiras sílabas de uma história triste e lá estava a primeira gota d’água, cheia de discrição, avançando lentamente por seu rosto. Conforme a história avançasse também, outras águas se juntariam àquela, formando uma linda imagem de comoção. Chorava de um jeito belo, de tanto que já tinha treinado tal atividade. Fazia tão bem seu papel que não era raro ver os outros se comoverem apelas pela sua comoção. Aqueles eram os poucos momentos em que se sentia humano.

Não teve uma vida fácil e logo cedo ganhou a consciência de que jamais teria. Nunca se tocou de que essa não era exclusividade sua. O egoísmo, tal qual as lágrimas, era sua principal marca. Não amava ninguém além de si próprio. E mesmo a si só o fazia por uma ingrata obrigação. Assim, ver alguém chorando por ele – algo que era incapaz de fazer pelos outros – o fazia ser tomado de um profundo orgulho. Existia, afinal.

Quando lia ou ouvia falar das carpideiras, sentia uma ponta de inveja. Nunca foi um profissional brilhante em sua área. Muito provavelmente se tivesse podido escolher a profissão daquelas velhas senhoras, seria o melhor de todos. Essa não era uma opção. E ao pensar em como seu único dom era inútil, sentia os olhos, as bochechas e o queijo se encharcarem com uma água sincera.

 

O gênio incompreendido

Se via como um gênio incompreendido, uma inteligência tão difícil de se acompanhar que o deixava aprisionado em um mundo solitário. Não tinha amigos. Era incapaz de manter qualquer tipo de relacionamento por pouco mais de três meses. Não se doía por isso. Entre ter que conviver com a mediocridade e com a solidão, ficava tranquilamente com a segunda. Melhor isso do que passar incontáveis vezes pelo processo de perder a amizade de alguém bacana, mas burro.
No fundo, porém, não era nada disso. Era um grande picareta. Por mais genial que se julgasse, era tão medíocre que estava a anos luz de distância da mediocridade que tanto condenava nos demais. Se escondia tão bem sob sua máscara de superioridade que chegava a fazer alguns acreditarem por algum tempo em seu jeito superior de ser. Chegou a ter seguidores. Gente que o tinha como modelo e sonhava com o dia em que atingiria o nível de inteligência daquele rapaz. Tivesse ele nascido na década de 1920 ou 1930, poderia ser um grande líder fascista. Daqueles capazes de convencer multidões a andarem uniformizadas e fazerem gestos estranhos. Com uma ou outra tacada de sorte, chegaria ao poder. Havia um detalhe, porém, que poderia atrapalhar a galopada rumo ao poder. O encantamento que gerava, acabava tão rapidamente quanto começava. Era tão vazio, que até as pessoas vazias que costumam seguir esse tipo de líder sentiam falta de algum conteúdo.
O que sempre o salvou foi o fato de ser um grande marketeiro. Vendia bem como poucos.  O problema é que só sabia vender aquilo em que acreditava. E só acreditava em uma única coisa: ele mesmo. Daí vem a explicação do sucesso inicial. Por pior que fosse o produto, o comercial fazia com que parecesse a mais fina de todas as cedas.

O que explicava essa habilidade tão grande para se vender era uma questão quase filosófica. Ou até mais do que isso. Era sua própria religião e se dedicava a ela com a pureza de um sacerdote. Acreditava em seus próprios dogmas e através deles entendia e explicava o mundo. Com isso, tinha resposta para tudo. Ou para quase tudo.

Tinha dificuldades apenas para entender uma questão. Por que as coisas não se acertavam em sua vida. Que ninguém o compreendia era um fato com o qual já estava acostumado. O que intrigava era porque as pessoas, mesmo sem o compreender, não o davam uma chance. Tantos gênios conseguiram demonstrar suas qualidades apesar de não serem completamente entendidos e ele continuava absolutamente na mesma…
Sua sorte era se julgar correto demais para perder tempo com esse tipo de questão. Sabia que um dia a sorte viraria para seu lado e que, finalmente, todo seu esforço seria reconhecido. Esperava que isso acontecesse ainda em vida. Não tinha vocação para Van Gogh. A admiração póstuma não o interessava nem um pouco. Queria todo o reconhecimento em vida e por um simples motivo: tinha nascido para liderar.

Na busca por um exército, viu a vida passar e não teve tempo de aprender absolutamente nada. Morreu velho, mas de um modo diferente da maioria dos velhos. Ao invés de ser mais sábio do que era quando veio ao mundo, morreu sem qualquer sombra de sapiência. Sua vida teve apenas uma utilidade. Mostrar que fingir está sempre longe de ser.

 

Grandes amigos

Eram grandes amigos. Tanto que era até difícil explicar de onde vinha tanta cumplicidade. Sabiam se entender até mesmo sem um olhar. Não eram poucas as histórias de, estando em lugares separados, saberem exatamente o que o outro sentia. Tinham uma ligação quase sobrenatural. Pareciam até irmãos gêmeos tamanha a conexão existente entre eles.

Não é nem necessário dizer que se amavam. Não como um casal de namorados, porque para isso era preciso haver tesão. E isso não havia. Por mais queridos que fossem um para o outro, não se imaginavam na mesma cama. Até se achavam bonitos e diziam ser sortudo quem caia nas graças do outro. Mas o tipo de amor existente entre os dois não permitia que esse tipo de desejo surgisse. Tinham um amor de irmão. Mais do que isso, de mãe e filho. De pai e filha. Se cuidavam. Se aconselhavam. Brigavam sem qualquer tipo de ressentimento.

E assim foi por muitos anos. Até o dia daquela bebedeira. Como já aconteceu com muitos amigos – e como ainda vai acontecer com tantos outros – uma noite calhou de os dois estarem carentes. Depois disso, a sequência de acontecimentos tornou a tragédia ainda mais previsível. Três doses de pinga e seis latinhas de cerveja para ele. Oito latinhas de cerveja para ela. Os dois na cama dele.

Ao acordar, lado a lado, mal acreditavam naquela situação. Era impossível que aquilo fosse verdade. Im-po-ssí-vel! O pior de tudo é o quanto tinha sido bom. Talvez porque se entendessem tão bem. Talvez porque sentiam um desejo reprimido que nem eles sabiam. Não importava o motivo. Tinha sido gostoso e ponto final.

Se é mesmo verdade aquela história de que um bom namoro nada mais é do que uma grande amizade que funciona bem na cama, tinham um problema. Um grande problema. Será que estavam namorando? Ele diria que sim. Ela, que não. Resolver o impasse não seria fácil. De um dia para o outro, ele começou a ter ciúmes. Socaria tranquilamente cada pessoa com quem ela já tinha ficado.

Para ela era difícil entender o motivo de tanto desespero. Sua cabeça, muito mais masculina que a dele, não via qualquer problema em amigos transarem de vez em quando. Nunca tinha acontecido até aquele momento apenas porque não tiveram a ideia antes. Uma simples foda, por melhor que tenha sido, nunca é razão para se apaixonar.

O tempo passou e a relação entre os dois foi ficando estranha. Ele caia de amores. Ela sentia vontade de ter mais um pouco daquela noite – e apenas isso. Os dois tinham medo de estarem sozinhos juntos. A amizade era boa demais para se arriscar assim. Para não correr esse risco, começaram a se afastar. Deixaram de se ver todo final de semana. Começaram a se ligar apenas a cada três ou quatro dias. Nem mesmo pela internet estavam mais sempre conectados. Foram se desligando. Tudo o que não queriam estava acontecendo. Ao fim e ao cabo o fim chegou tão naturalmente que nem uma lagrima escorreu quando se deram conta de que o que restava eram apenas as lembranças daquela noite e de todos os dias e noites que vieram antes.

 

A grávida

Tinha uma lenda na família de que, a cada criança que nascesse, alguém ia morrer. Desde quando a memória se lembrava, a história ia se confirmando. Diziam os mais velhos que era assim desde sempre e que não havia problema algum em ser assim. Era o ciclo natural da vida. Descrente das coisas do outro mundo, sempre encarou tudo como uma infeliz coincidência.

É lógico que queria ter conhecido a avó que morreu no ano em que nasceu. Era triste não ter podido conviver com ela, mas era a vida. Não se sentia culpada. Por mais que dissessem o contrário, sabia que não tinha roubado a energia de ninguém para vir ao mundo. Tinha certeza de que isso era pura bobagem do pessoal das antigas.

Fazia muito tempo que não pensava nesse assunto. Com os mais velhos se despedindo deste mundo, essas histórias vão ficando cada vez mais distantes. Tudo seguia em sua mais perfeita normalidade até o dia em que descobriu que estava grávida. Na verdade, não exatamente aquele dia. Não se tocou da gravidade do assunto logo no primeiro momento. Curtiu a gravidez tranquilamente até o quarto ou quinto mês quando, sem qualquer motivo específico, se lembrou das histórias sobre os falecimentos que precediam os nascimentos. Sabia que era a mais pura de todas as bobagens, mas, dentro de si, algo a fazia acreditar.

Tinha medo do que poderia estar para acontecer. Sua vida se resumia a umas poucas pessoas queridas. Da família, então, eram pouquíssimas. O tempo, as mudanças e as brigas tinham os resumido a não mais que meia dúzia. E ela fazia questão de cada um deles a seu lado. Ainda mais neste momento. Estava carente, com medo de seu futuro de mãe solteira e precisava de todas as forças. Eles eram suas forças. Se um deles – qualquer um – tivesse que morrer, seria como ficar manca.

Estava feliz com a chegada do moleque. Sempre sonhou em ter um filho e, mesmo que aquela não fosse a maneira que tinha idealizado, estava muito próximo de realizar seu maior desejo. Apesar de toda felicidade, porém, não conseguia sorrir. A cada momento se lembrava do que estava prestes a acontecer. E sua vontade então era de correr pelo mundo, de chorar, de abraçar alguém. Nunca fez isso. Nunca contou para ninguém o que se passava pela sua cabeça naqueles momentos.

Pensou em fazer um acordo com Deus. Não tinha muitas peças na manga para negociar, mas estava disposta a qualquer coisa para não abrir mão de ninguém em sua vida. Os meses foram passando e a tensão crescendo. Qualquer resfriado da mãe ou tropeção do irmão eram motivo para desespero. Queria que fossem ao médico todo o tempo. Ninguém entendia o que se passava com ela, mas fingiam normalidade. Provavelmente eram os hormônios agindo.

Chegou ao oitavo mês com o coração na mão. Pareciam estar todos sadios, mas a morte é traiçoeira. Tudo parecia um sinal de que ela estava vindo buscar alguém. Quando chegou o dia de entrar na sala de parto, não sabia se sentia ainda mais medo ou alívio. Parecia que tudo estava sob controle. A criança nasceu. Um menino lindo e forte. Saudável como toda a família.

Numa daquelas visitas que toda a mãe recebe em casa, ficou sabendo da morte de um tio avô distante, de quem ela sequer conhecia a existência. Tentou segurar, mas tudo o que conseguia fazer era sorrir e falar baixinho: “foi isso…”