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Arquivo da Categoria ‘Ficção’

Sumiço

Sei que ando meio desaparecido, mas não precisam acionar a polícia e os bombeiros. Foram só algumas semanas intensas demais que me impediram de vir aqui visitar vocês. Prometo que as coisas já estão se normalizando e que logo logo volto a atualizar por aqui.

Pela atenção, obrigado!

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20 e poucos

22, fevereiro, 2013 Gabriel Ferreira Sem comentários

Quando tinha 17 ou 18 anos, ela tinha o hábito de mentir a idade. Para quem perguntasse teria 24.  Idade de gente responsável, com um bom emprego e muita liberdade. Por isso, só se envolvia com caras mais velhos. Achava incrível como eles ganhavam tanto dinheiro em suas agências de publicidade, escritórios de engenharia e bancos de investimento – e ainda assim conseguiam ter uma vida social tão agitada, cheia de baladas e amigos. Isso é que é vida! Mal podia esperar a hora de ter 24 de verdade, um ótimo cargo e a chance de fazer o que bem entendesse.

Não demorou muito – talvez uns 6 ou 7 anos, talvez até menos – para descobrir que não podia estar mais enganada quanto ao futuro. Nunca podia imaginar como se vive de aparências nessa fase da vida. Trabalha-se muito, ganha-se pouco e, para compensar, afoga-se as mágoas em uma festa qualquer. Ao reparar isso, ela entrou oficialmente na crise dos 20 e poucos anos. Uma crise quase que obrigatória para todo jovem dos anos 2000 e tantos.

No tempo de seus pais era diferente. Não havia oportunidade para se viver essa crise. A mãe já era mãe com a idade dela. E essa informação vem à tona a cada bebedeira ou ato mais irresponsável. Ela sabe que não é mais hora de fazer esse tipo de coisa e se sente vazia cada vez que se arruma para sair de balada. “Não tenho mais idade pra isso.” Além disso, é cada vez mais difícil reunir os amigos. O povo da faculdade quase não se vê mais, cada um curtindo a seu modo a crise dos 20 e poucos.

Quer encontrar o homem certo e está cansada de se divertir com os errados. Ainda sonha com o príncipe encantado, mas não tem ideia de onde ele possa estar. Tem preguiça dos homens de sua idade, todos tão vazios, e mais ainda dos mais velhos, que ainda se acham uns garotões e insistem em um estilo de vida que nem ela quer mais para si.

No trabalho é a mesma coisa. Não está no cargo que tanto sonhou e não tem mais certeza de ter escolhido a profissão certa. Acha o chefe um incompetente e a empresa uma grande vilã. Não consegue entender como algumas pessoas são capazes de ficar mais de cinco anos no mesmo lugar. Ela mesma comemora quando ultrapassa a barreira do primeiro aniversário – um sinal de grande resistência.

No fundo, seu sonho era largar tudo, colocar a mochila nas costas e rodar o mundo. Gravar um documentário. Ajudar crianças carentes da África. Fugir. No fundo é isso que deseja, já que a realidade é tão cruel. Como a grana é curta e não deixa que os sonhos sejam algo mais que isso, pensa em como montar um blog de sucesso, mudar de área, ter a própria empresa – uma coisa moderna, que ninguém ainda fez, sabe? Nem ela sabe, na verdade.

O que ela sabe é que está cada vez mais perto dos 30 e isso é assustador. Ultrapassar essa barreira vai ser a última oportunidade de virar adulta – e de não ser uma velha ridícula e carente, igual aquela do trabalho. Última chance para ser bem sucedida na profissão. Última chance para encontrar o cara certo. Envelhecer, que já foi um grande sonho, começa a ser angustiante. Tudo parece ser a última chance. O que ela não sabe, porém, é que não existe última chance e, muito menos, que essa não é a última crise. Depois vão vir as dos 30, dos 40, dos 50, todas as que existem no meio dessas e todas as que virão depois. Sempre vão existir as oportunidades perdidas e as impossíveis de realizar. E assim, de crise em crise, o barco segue e chega a algum lugar – quase sempre bem diferente daquele que imaginamos onde iríamos estar.

 

Um dia de sorte

Olhando para os lados, como quem procura a presença da polícia pouco antes de cometer um crime, ele entrou na delegacia. Bem devagar, caminhou até o primeiro policial que encontrou e pediu para falar com o delegado. O policial, um gordinho com cara de pouco caso e bigodinho fino, igual o dos galãs de antigamente, perguntou o motivo.

– Tenho uma confissão a fazer.

Foi medido de cima a baixo. Os pouco menos de um metro e sessenta, a boca grossa e os olhos arregalados exalavam vagabundagem de todos os poros. Mas com certeza não passava de um bandidinho pé-de-chinelo. Batedor de carteira. Quando muito, assaltante de padaria. Se fosse criminoso importante, não andaria com aquelas roupas quase sujas e prestes a rasgar – cara de roupa de segunda mão, retirada há pouco em alguma obra de caridade qualquer.

– Senta ai e espera. O delegado muito ocupado para te atender agora.

– Ele vai gostar de me ouvir.

Aquela hora da noite, o delegado com a cabeça cheia por conta do assassinato da moça dos Jardins, os jornalistas na porta, doidos para receber uma boa dose de carniça e aquele sujeitinho maltrapilho querendo incomodar o homem.

– Vai ter que esperar.

– Mas fui eu que matei a loirinha no Trianon – mal terminou a frase e pareceu surpreso com o que tinha acabado de dizer. Teve que repetir para ver se fazia sentido – Fui eu!

O gordinho sentiu as pernas tremerem naquele momento. Três semanas de investigação e nenhum suspeito decente. A sociedade questionando a competência daquela equipe. E, de repente, o vagabundo estava lá, na sua frente, pronto para se entregar. Estava bom demais para ser verdade. Não podia ser verdade. Se soubesse que aquele era seu dia de sorte, teria aproveitado a hora do almoço para encarar a fila da Lotérica. Sem dizer palavra para o maltrapilho à sua frente, virou o rosto e gritou para que um tal de Meira fosse chamar o doutor.

O doutor – um jovem bacharel, que arrancava suspiros das donas de casa que viam suas entrevistas no Jornal Hoje – saiu de sua sala com ares de mau humor. Nos últimos dias, só sabia fazer cara melhor na hora das entrevistas. Esse povo da imprensa não pode reparar que ando tão preocupado.

– Que foi? – apesar da cara e do esforço para que a pergunta ganhasse ares de repreensão, o tom não foi tão azedo quanto seria de se esperar. Nunca conseguia ser tão durão quanto queria.

O gordinho de bigodes caminhou até o doutor e cochichou em seu ouvido. O doutor fez o sinal da cruz, mas não quis deixar que sua cara mostrasse qualquer alívio – como sempre, falhou na missão.

– Vamos entrar.

Entraram os três. O sujeito maltrapilho, o doutor bonitão e o gordinho dos bigodes.

Como matou? Por que matou? Conhecia a vítima? Roubou alguma coisa? Já tinha matado antes? Usa droga? Cadê a arma? Horas de perguntas. Horas de respostas. Nem todas batiam exatamente com o que as investigações tinham apontado. Mas eram respostas – e era isso o que mais estava em falta naquela delegacia nas últimas três semanas. Se o sujeito estava dizendo, tinha que ser verdade.

Confissão feita. Bandido preso. Hora de avisar àquele povo da imprensa que eles já tinham uma foto para estampar na primeira página do dia seguinte.

Depois de tanto tempo, aquele tinha sido um dia de sorte. Os jornais iam ter a tão sonhada manchete forte e inesperada. O doutor, o gordinho e o Meira, iam ter um pouco mais de paz até o próximo caso barulhento. O maltrapilho ia ter a chance de dormir sob um teto. E alguém, em algum lugar, ia respirar aliviado ao saber que tinham encontrado um culpado.