Arquivo

Arquivo do autor

A prova de que ficar parado não adianta

Ainda ontem eu estava aqui falando sobre a importância de deixar de correr em uma esteira ergométrica e ir para a rua, sair do lugar e ver uma nova paisagem a cada momento. Quando escrevi o texto, mal podia imaginar que naquela mesma noite teria um exemplo do quanto é importante realizar os sonhos e não ficar só planejando.

Uma das coisas mais bacanas da minha profissão é a oportunidade de ouvir as histórias das pessoas. E ontem ouvi uma que me deixou encantado. Conversei com uma empreendedora que montou seu negócio aos 19 anos. A empresa tinha tudo para continuar pequena, mas uma combinação de fatores fez com que ela crescesse – e muito. Nenhum desses vários elementos era excesso de dinheiro ou uma larga experiência em administração de empresas. Veja bem, minha entrevistada tinha 19 anos quando foi empreender e seu único emprego havia sido como atendente do McDonald’s. A sócia dela tinha em seu currículo somente trabalhos como empregada doméstica e cabeleireira.

O principal fator que contribuiu para o sucesso da empresa foi a dedicação. Tanto minha entrevistada quanto sua sócia colocaram ali todas as forças. Foram estudar e entender o que podiam fazer para que o negócio se tornasse um sucesso. Minha entrevistada fez faculdade, pós-graduação, MBA e está sempre em busca de cursos no Brasil e no exterior que possam aprimorar suas habilidades. Mais do que isso, ela procura transmitir o que aprende nas aulas para o pessoal que trabalha na empresa e incentiva os funcionários a também não deixarem de estudar.

Nosso bate-papo foi curto, infelizmente, mas foi daqueles em que você sai absurdamente inspirado. Taí uma das grandes graças de ser jornalista.

Para quem pediu, aqui vai o link da matéria que resultou dessa conversa)

Sobre esteiras ergométricas – ou como deixamos de fazer o que realmente vale a pena

Se você já correu em uma daquelas malditas esteiras ergométricas, conhece bem a sensação de fazer um esforço brutal e não sair do lugar. Talvez você já tenha percebido também que é exatamente essa sensação que muitas vezes toma conta da nossa vida. Não é raro estarmos o tempo todo ocupados, mas nunca fazermos nada de fato. Depois de um dia cansativo e estressante, paramos para pensar no que realmente produzimos e aprendemos e somos incapazes de chegar a uma conclusão.

Já ouvi uma série de explicações para isso. Dizem que a culpa é da internet, do jeito mais imediatista que a minha geração vê as coisas ou da globalização, que tornou tudo mais rápido… Não importa. Seja qual for o motivo, é frustrante você não ter tempo para ver seus amigos, para assistir àquele filme bobinho que estreou semana passada no cinema, para ler o livro que você comprou há tanto tempo e ainda não conseguiu abrir ou dar uma simples volta no quarteirão, para respirar um pouco de ar puro e ver que existe vida além das quatro paredes que cercam seu escritório.

De um tempo para cá, resolvi brigar contra essa sensação. Voltar a escrever aqui é parte importante desse projeto, mas também já é consequência dele. Um dos motivos que tinha me afastado um pouco do teclado era a falta de assunto. Por alguma razão que não sei explicar, deixei de ver os meus amigos com a mesma frequência que via antes e nem mesmo tempo para um bate papo pelo Gtalk estava arrumando. Muito trabalho? Talvez. Mas isso não justifica. Tenho, sim, momentos livres, que vinha desperdiçando por aí.

Por mais que a gente trabalhe, sempre temos tempo de dizer pelo menos um oi para quem gostamos. A tecnologia ajuda – e muito – nisso. O problema é que ao invés de usar o segundinho livre entre uma tarefa e outra para mandar uma mensagem para quem amamos, preferimos postar uma bobagem qualquer no Facebook. Assim, temos a impressão de que estamos nos conectando com muito mais gente ao mesmo tempo. Ledo engano. Fazemos, sim, uma conexão superficial, que, na prática, resulta em um quase nada.

É o mesmo que acontece com nossos projetos pessoais. Ao invés de nos dedicarmos àquilo que realmente queremos fazer – ler ou escrever um livro, assistir ou gravar um filme, planejar ou executar uma viagem – nos perdemos em uma série de outras questões de menor importância. Lemos muita bobagem na internet – e peço desculpas por fazer você perder tempo com esse texto ao invés de se dedicar com o que realmente importa – e fazemos muito pouco acontecer. O tempo que perco entrando nos mesmo sites de sempre, para ver as mesmas coisas de sempre seria muito melhor gasto se empregado no início das pesquisas de um livro que sonho há muito tempo, por exemplo.

É por isso que admiro uma amiga que tomou a decisão de cometer um suicídio virtual. Acredito que ela vá ter uma vida muito menos poluída daqui para frente. Provavelmente vai perder um vídeo ou outro de criança esperta ou de um gatinho fofo. Talvez nem chegue a ler esse post. No final do dia, porém, ela não será menos inteligente do que eu do que você por ter perdido uma meia dúzia de memes que circulariam na timeline do Facebook dela. Acredito que haja até uma grande chance de ela se tornar uma pessoa mais produtiva e de, por isso, se destacar muito mais na vida do que eu ou você. (Sei que tem gente que pensa o contrário e até já escrevi sobre isso, mas talvez o processo seja de longo prazo.)

Tenho planos que não saem do papel há anos. Não tive tempo de fazer com que esses sonhos se tornassem realidade? Não tive vontade de tirar essas ideias do papel? Ou o que faltou na verdade foi coragem? Fico com a última opção. Estamos nos acovardando. Vemos tanta gente fazendo tanta coisa incrível por ai, que ficamos com medo de fracassar. E se a minha empresa não for tão genial quanto a do Zuckerberg? E se meu livro não fizer tanto sucesso quanto os da J.K. Rowling? E se meu documentário não for tão bom quanto os do Eduardo Coutinho? Nos obrigamos ao sucesso, como se essa fosse a única opção. E como resultado não temos fracassos nem sucessos. Não temos nem mesmo boas histórias para contar. Não enxergamos justamente que essas pessoas só se destacaram porque tiveram a coragem de se mexer um pouco.

Optamos, mesmo que inconscientemente, pelo ostracismo e pela mediocridade que tanto nos apavora.  E para disfarçar o real motivo dessa opção por não realizar nossos sonhos, nos fingimos de ocupados – mesmo que boa parte da ocupação seja, na verdade, ver o que o povo anda dizendo nas redes sociais.

Sei que se mudar essa forma de encarar o mundo fosse fácil, eu não teria dedicado a última meia hora a escrever esse texto. Não haveria necessidade. Fazer isso é parte do meu processo de mudança também. Ainda não estou pronto, mas já tomei a decisão de me mexer. Não vou mais correr na esteira ergométrica. Me recuso a ficar cansado e olhar sempre para as mesmas paredes. Vou para a rua, que é onde a paisagem é uma a cada instante. E se, por algum acaso, não chegar a lugar nenhum ou tropeçar em uma dessas pedras portuguesas que têm provocado tanto barulho nos últimos tempos, que seja. Para o bem ou para o mal, nem eu nem o cenário seremos os mesmos.

(P.S.: Pouco depois de escrever esse texto, me deparei com uma história que me fez ter certeza de que ficar parado não adianta.)

Quando é hora de pressionar o entrevistado?

Uma das funções mais difíceis do jornalista é entrevistar alguém. Ter o cuidado e o feeling de fazer a pergunta certa na hora certa e não interromper a pessoa antes de ela dar chegar à melhor parte da resposta é uma daquelas habilidades praticamente impossíveis de se ensinar na faculdade e que só são desenvolvidas com muita prática e bom senso. Particularmente, tenho o hábito de ouvir muito mais do que perguntar. Não sei se é o melhor sistema, mas é o que mais funciona para mim. Já aconteceu de eu ficar mais de uma hora com o entrevistado e intervir apenas umas duas ou três vezes. Descobri coisas incríveis, que jamais teria descoberto sufocando a pessoa com uma tonelada de questões.

Não foi por mero acaso que batizei esse blog de O Escutador e que escolhi a frase “Escutar também é falar”, do grande Mia Couto, como o lema dessas escrevinhações. Fico extremamente irritado quando vejo alguns colegas com a mesma postura do repórter daquele vídeo do Porta do Fundos. Para quem não vive o dia a dia do jornalismo, pode até parecer que aquilo é um exagero. Não é bem assim. Me cansei de ver gente que se diz jornalista, mas só pensa em como cavar a manchete da próxima edição. Pior. Já fui orientado por chefes a arrancar determinadas declarações de um entrevistado. E reparem que fiz questão de não utilizar aspas cercando o arrancar.

É lógico que, em alguns casos, pressionar um entrevistado é fundamental. Nessas horas, porém, a ideia não é fazer que o sujeito responda a pergunta do jeito que você ou seu chefe quer. O objetivo, na verdade, é simplesmente que ele responda e pare de escorregar. Foi o que aconteceu em uma histórica entrevista do Paulo Maluf para a Folha de São Paulo. Não consegui encontrar o link, mas a transcrição da conversa entre o político e o repórter mostra bem o quanto é complicado lidar com gente especializada em fugir de perguntas que os coloquem em uma saia justa.

Lembrei desse caso ao me deparar com o vídeo abaixo. Nele, uma entrevistadora da Fox News.com perde seus dez minutos com o entrevistado insistindo em uma mesma questão – que já tinha sido respondida antes do primeiro minuto, apesar de não da forma que ela desejava e esperava. O resultado final do “bate-papo” é constrangedor – para a moça, para o pesquisador e para nós, público.

(Não encontrei uma versão com legendas. Um breve resumo da história é o seguinte: Reza Aslan, um estudioso de religião com PhD e muitos anos de trabalho, escreveu um livro sobre Jesus. Só que ao invés de se ater ao trabalho do pesquisador, a jornalista preferiu perguntar o que levou um muçulmano a escrever sobre Cristo. Ela chega a dizer que o fato é tão estranho quanto um democrata escrever um livro sobre um presidente republicano – o que, como sabemos, não tem nada de estranho, imoral ou ilegal.)

Descobrir como – e quando – insistir em uma questão é um desafio. Mas o fato de ser uma missão difícil não deveria abrir brecha para situações ridículas como essa.

Um sincero pedido de desculpas

Antes do próximo post, queria fazer um sincero pedido de desculpa à meia dúzia de leitores que entra nesse blog com certa frequência. Fiquei muito ausente nas últimas semanas. Até tentei escrever algumas coisas, mas o resultado foi uma dúzia de contos sem fim espalhados pela tela de meu desktop e sabe-se lá quantos textos sobre assuntos variados que nem me dei ao trabalho de salvar.

Posso dizer que foi o excesso de trabalho que me impediu de escrever mais vezes aqui. Mas é mentira. Já teve épocas em que estive ainda mais atolado e mesmo assim reservei um tempinho para soltar. Nos últimos dias, porém, faltava alguma coisa para que os textos saíssem. Acho que tem muito a ver com aquela frase do Rubem Alves, “ostra feliz não faz pérola”. Apareceu um novo grãozinho de areia e hoje acordei com uma vontade danada de voltar a ser produtivo. Que seja eterna enquanto dure!

(E voltemos à programação normal!)

Sumiço

Sei que ando meio desaparecido, mas não precisam acionar a polícia e os bombeiros. Foram só algumas semanas intensas demais que me impediram de vir aqui visitar vocês. Prometo que as coisas já estão se normalizando e que logo logo volto a atualizar por aqui.

Pela atenção, obrigado!

Categories: Ficção Tags:

Lutemos pelos 20 centavos – e depois pelo resto

Que os 20 centavos são só a gota que fez o copo transbordar todo mundo já sabe. Mas não podemos nos esquecer dos 20 centavos. Vendo de fora, estou um tanto preocupado com o rumo que o movimento tomou. Existe muita coisa para se protestar? Existe. Tem como mudar tudo isso de uma vez? Não. O jeito, então, é ir aos passos. Não adianta protestar de uma única vez contra o aumento da passagem, a PEC 37, o Feliciano (lembram dele?), a corrupção e a quantidade de laquê utilizada pela Dilma. Quem abraça tudo não abraça nada.

O que justifica um movimento tão grande é justamente que, pela primeira vez em muito tempo, tivemos um objetivo concreto para lutar. Tradicionalmente as passeatas contra “tudo isso o que está ai” são vazias, ocupadas por umas poucas dezenas de militantes aguerridos da esquerda ou da direita. Os 20 centavos são essa coisa palpável que faltava para dar vontade de sair de casa e correr o risco de voltar ferido ou ser preso. Não é só o preço da passagem que está levando as pessoas às ruas, mas é por isso que tem que se lutar nesse momento – sob a pena de ver o movimento se esvaziar rapidamente. Fazer o preço baixar vai ser a prova de que a mobilização é capaz de mudar as coisas e pode servir como incentivo para que a luta continue. Qual o próximo tema da pauta? Não sei. Mas só trará resultados se, novamente, for algo absolutamente concreto.

Não gosto da expressão o “gigante acordou”. Antes de falar isso, lembre-se que você também faz parte do gigante. Se você tem a impressão de que ele estava adormecido, é porque você também estava. O brasileiro luta, sim, e não é de hoje. Uma passeata fecha pelo menos parte da avenida Paulista a cada quatro dias. Um povo que protesta no mínimo duas vezes por semana não me parece um povo adormecido. Parcelas da população, sim. E alguns desses estão, de fato, acordando.

Entre meus amigos mais engajados, vi alguns reclamarem da presença de um pessoal com cara de elite nos protestos. É como se tivessem tomando algo que é mais deles do que dos outros.Oras. É natural que isso aconteça. Um movimento não é bolo para crescer apenas com base nos mesmos ingredientes. É preciso agregar gente. Ao invés de se preocupar com a loirinha de olho azul que está protestando do seu lado, preocupe-se em manter a unidade do discurso. Não olhe para ela como uma inimiga, querendo roubar a “sua” manifestação. Política se aprende fazendo, então ajude a moça a fazer política.

Não sei quanto tempo vão durar os protestos. Não sei se a passagem vai baixar. Não sei o que vai vir depois disso. Mas sei que é preciso manter a roda girando. Já tivemos mobilizações que, depois de alcançados os objetivos, se desfizeram. Resta a nós lutar para que, dessa vez, a luta não acabe.

 

A ruiva

Só quem já se apaixonou por uma ruiva sabe o quanto isso é difícil. E ele já estava calejado o suficiente para saber. Foi no colégio – quando ainda não tinha noção de absolutamente nada e descobria absolutamente tudo – que soube do poder daqueles cabelos com cores difíceis de descrever – e impossíveis de se imitar com tintura. Sofreu muito, como acontece em todo primeiro amor. O sentimento era tão intenso que prometeu jamais, em toda a sua vida, até o último dia e enquanto ainda tivesse forças se apaixonar por outra ruiva. Dizem que Lucille Ball, a ruiva mais famosa dos anos cinquenta, tinha uma frase sobre o direito de todo homem se apaixonar pelo menos uma vez na vida por uma linda ruiva. Lucy advogava em causa própria, mas tudo bem. Assim ficaria decidido: se uma vez era o suficiente, ele já tinha preenchido a cota.

Mal se lembrava da origem dessa promessa quando conheceu Vanessa. A apresentação foi formal, típica de novos colegas de escritório. Ela sentaria a seu lado e parecia ser muito gente boa. Nada demais. Apenas gente boa. Não que isso fosse suficiente para quebrar todo o preconceito que sentia contra aqueles cabelos, mas já era um bom começo. Nos primeiros dias, trocavam apenas cumprimentos protocolares. Mas a coisa logo evoluiu para uma amizade. Ela tinha uma risada simpática, que sabia surgir na hora certa. Saber rir na hora certa e de um jeito simpático é uma qualidade que deveria ser mais valorizada, de tão rara que é. Os olhos eram espertos e sabiam ser irônicos. Ter olhos irônicos também não é para qualquer um. É preciso uma malícia natural, capaz de transmitir o tom certo apenas com uma mirada. Ela tinha essa malícia e – como toda ruiva – muitas outras.

De risada em risada e de olhar em olhar, a amizade se fortaleceu. Saiam para almoçar juntos e, nessas ocasiões, jamais falavam de trabalho. Essa era uma característica que ele valorizava bastante em colegas de escritório. A capacidade de só falar em serviço quando isso é realmente necessário é uma dádiva reservada a menos gente do que os sabem rir na hora certa e ser irônicos apenas com o olhar. Ele estava encantado por ela. Tinham muitas coisas em comum. Não gostavam dos mesmos livros, filmes ou música. Não torciam para o mesmo time. Não sonhavam com o mesmo futuro. E mesmo assim tinham absolutamente tudo em comum. As conversas rendiam horas. Se sentiam bem quando estavam juntos. Evitavam os demais colegas para ficarem sozinhos.

Talvez o leitor já esteja imaginando que não demorou para eles caírem em um  amor irreversível e que essa seja só mais uma história de final rápido e feliz. Não foi isso que aconteceu. Eduardo e Mônica é um casal que funciona apenas nas músicas de loucos como Renato Russo ou na cabeça de apaixonados, o que dá quase na mesma. Eles sabiam que deveriam se aproveitar apenas da amizade e que mais do que isso era procurar uma forma de acabar com tudo. Não queriam isso. Não podiam tolerar a ideia. Nem na maior das bebedeiras jamais trocaram um beijo sequer. De vez em quando até se imaginavam juntos e tinham uma amizade tão forte que falavam do assunto um com o outro com a maior naturalidade. Com a mesma naturalidade de que falavam de outros amores, maiores e menores, fixos e ocasionais. E isso era mais uma prova de que jamais dariam certo juntos. Se conheciam demais.

Como costuma acontecer em relações de amizade entre homens e mulheres, ele tinha muito mais interesse nela do que ela nele. Mas não importava. Sabiam lidar com a situação. Deixavam que os outros falassem e não se importavam com a maldade alheia. Se bastavam. E era isso que importava.

Chegou um momento, porém, em que sentiam falta de algo mais. Para que não precisassem encontrar esse algo mais um com o outro, resolveram se ajudar. Ele apresentou um amigo a ela. Em retribuição, ela incentivou um relacionamento entre ele e sua irmã. Formavam aqueles tipos de casais que fazem tudo em parceria, muito mais um quarteto do que dois pares. Não havia cinema, jantar ou festa a que não fossem todos juntos. A sincronia era tanta que os dois namoros acabaram na mesma data. Um casal não faria sentido sem o outro.

Depois disso, não demorou para que cada um começasse uma nova vida amorosa. Ela, com um antigo companheiro de faculdade – uma daquelas paixões mal resolvidas que todo mundo tem. Ele, com a amiga de um primo – uma daquelas paixões sem amor que todo mundo precisa ter. Calhou de os novos parceiros serem extremamente ciumentos. Foi natural então que acabassem tomando rumos diferentes. A amizade esfriou e acabou sem qualquer dor. Morreu antes que fosse morta.

Ela foi trabalhar em uma nova empresa e ele foi promovido para um novo setor. Como não tinham muitos amigos ou interesses em comum, era raro se encontrarem. Sentiam falta um do outro, mas nunca se deram conta disso. Quando ela casou, até pensou em convidá-lo para o casamento, mas soube que ele estava estudando nos Estados Unidos e deixou por isso mesmo.

Um dia, já quarentão, ele se pegou pensando que podiam ter sido um casal incrível. Não dariam certo, é lógico. Mas já que até a amizade, que parecia forte, teve fim, será que não teria valido apena fazer com que a relação fosse mais curta e mais intensa? Nunca teria a resposta para isso e nunca quis ter. Os caminhos que escolheram escreveram a história por si só. Talvez, se ele não tivesse conhecido aquela garota com cabelos e temperamento de fogo nos tempos de colégio, tudo teria sido diferente. Mas agora isso já não importava mais. Vanessa – com seus cabelos, sua risada e seu olhar – tinha deixado suas marcas. Assim como toda ruiva faz na vida de um homem. Dessa vez ao menos tinha sido sem sofrimento.

 

Minha desastrosa vida amorosa

Sempre quis me apaixonar loucamente. Viver um amor de cinema. Ter a coragem de correr atrás da garota dos meus sonhos em um aeroporto lotado. Olhar pela janela e ver um dia chuvoso, mas assim mesmo ir correndo só pra ver o meu amor. (Que maravilha! Que coisa linda que é o meu amor!) Olhar nos olhos de alguém e dizer, sem medo de parecer ridículo ou de estar exagerando, um “Eu te amo” sincero. Não sei se um dia vou viver algo assim. O que sei é que, quanto mais penso, mais começo a achar tudo isso uma bobagem – mas uma bobagem com a qual continuo sonhando.

Não é que nunca tenha me apaixonado. Pelo contrário. Cultivo amores em série e esse é um dos maiores motivos para eu não ter coragem de amar ninguém perdidamente. Como posso me dedicar exclusivamente a ela, se deve haver uma próxima ainda melhor, que me provoque sensações ainda mais intensas? E é assim que, quase como uma regra, vou transformando minhas paixões em amizade. Resultado: muitas amigas e nenhuma namorada. Uma vida amorosa para lá de desastrosa.

Pode ser pelo signo ou por algum outro problema qualquer, mas sou daqueles que sofre por amor. No fundo, gosto desse sentimento desesperador de não ter certeza do que a outra pessoa sente. Gosto de emitir sinais – nem sempre muito discretos – e aguardar respostas. Para ser sincero, sinto mais prazer nesse jogo prévio do que em tudo o que vem depois. É uma delícia procurar sinais de correspondência e uma angústia um tanto quanto masoquista ver que eles não estão chegando. Tem até casos em que já desisti da moça, mas continuo tentando descobrir se, em algum momento, ela me quis. Talvez seja uma carência, uma necessidade de me sentir amado. Não importa o motivo. O que importa é que está nessa sedução – palavra horrível e que já perdeu muito de seu significado – uma deliciosa fonte de prazer.

Nunca fui muito adepto da pegação pura e simples. Raramente fico com quem não conheço. Não vejo tanta graça em uma relação que surge do nada e tem um futuro tão promissor quanto o próprio passado. Sinto falta justamente desse jogo lento, que transforma a amizade em amor e que permite que o amor volte a ser amizade pura.

Sou um fã dessa linha tênue entre amor e amizade. Tenho muita dificuldade em identificá-la e acho que já perdi muito por conta disso – quantos amores eram só amizade e quantas amizades podiam ter sido grandes amores? Mesmo assim sou um fã incorrigível. Sem essa divisão tão fina, se apaixonar não faria sentido. Impossível uma relação dar certo sem caminhar cambaleante nessa fronteira. É esse andar de bêbado que mantém tudo vivo. E é quando a gente tomba definitivamente para um lado ou para o outro que as coisas saem do lugar.

Não me considero um grande especialista em matéria de amor. Nem poderia. Meus sentimentos são uma estranha mistura de romantismo e frieza que até eu sou incapaz de compreender. Sem me explicar, não tenho o direito de ser especialista em nada. O que sei sobre o amor – e é muito pouco, perto de tudo o que acho que qualquer um deveria saber para ditar regras por ai – é que ele é uma coisa estranha. Tudo bem que isso é um baita chavão. É natural, já que há tanto tempo o homem tenta encontrar explicações para o coração saindo pela boca e sempre falha.

Quase todas as vezes em que me senti apaixonado por uma garota, juntei coragem sabe-se lá de onde para demonstrar isso claramente. Existe apenas uma única e honrosa exceção, que guardei para mim como um segredo que todo mundo sabe. Nos demais casos, queria fazer uma declaração daquelas de filmes e livros, com direito a palavras bonitas e até músicas compostas especialmente para o momento. Bobagem, já que não consigo dizer nem mesmo um “eu te amo” sem me sentir um idiota. Por mais que muita gente diga o contrário, sou um cara tímido. Mas não é isso que me impede de dizer a bendita frase a torto e a direito. Essas são três palavras que carregam um peso desproporcional demais e que, por isso, se tornam perigosas. O que sempre fiz, então, foi tentar demonstrar o quanto a pessoa era especial para mim. Fazer isso sem palavras – de tanto me apegar à palavra escrita, desaprendi a utilizá-la através da boca. O jeito então é demonstrar por atos. Tarefa difícil, já que normalmente nem eu mesmo sei o tamanho a que essa dedicação deve chegar para ser proporcional ao que sinto.

Comecei a rascunhar este texto quando o acaso me fez cair na página do Facebook de uma das minhas primeiras paixões. Um daqueles amores dos tempos do colégio que, com sorte, se convertem em primeiro beijo. Fiquei alguns minutos olhando para a foto da menina e pensando no quanto ela devia ter mudado de lá para cá. A aparência era exatamente a mesma e fiquei curioso para saber como poderia haver uma mulher por dentro daquela menina. Ou será que ela continuaria exatamente a mesma, tão interessante naquela época e tão descartável para os dias de hoje? Foi daí que me lembrei de sua letra cuidadosa em uma carta que era para ser de amor. Letra de menina que quer ser princesa. Espero que ela e a letra tenham mudado muito nesses últimos quase 15 anos. Tentei encontrar em algum lugar de minha cabeça as bobagens ditas em resposta àquela carta por meio de meus garranchos dedicados.

Não me lembrei ao certo do que escrevi e nem do que disse para ela. Tenho apenas uma vaga memória de como a história se desenrolou – nada digno de nota, nem para um garotinho de onze ou doze anos, garanto. Mas mexer com essas lembranças me puxou muitas outras – desde aquele tempo, em que pensava que quando eu “fosse grande” aprenderia a agir nesses casos até hoje quando absolutamente não sei como agir nesses casos. A reunião desses passados pariu este texto. O engraçado de tudo é que todas as histórias, mesmo aquelas que na época pareciam insuportavelmente dolorosas, me causam exatamente a mesma sensação. Em resumo, é uma vontade de rir das burradas que cometi e saudades das esperanças que tive.

É lógico que até hoje não enfrentei nenhum daqueles amores da literatura ou do cinema. E é lógico que, por mais que ache uma bobagem, não perco a esperança de viver algo assim. Mas quero essa experiência muito mais por teimosia do que por qualquer outra coisa. No fundo sei que não há romance de novela das oito capaz de deixar tantas amizades e risadas quanto a minha desastrosa vida amorosa. E a sua também.

Todas as qualidades da menina sem qualidades

Assisti ontem ao primeiro capítulo de A Menina Sem Qualidades, série de ficção da MTV Brasileira. Fiquei impressionado e mal posso esperar pelo próximo episódio, hoje à noite. A história é forte e requer uma boa dose de estômago para ser assistida. Dificilmente seria exibida por qualquer outra emissora – pelo menos não com tanta crueza.

Não se engane pelo fato de a protagonista ter 16 anos. A série não lembra em nada Malhação. A adolescente interpretada por Bianca Comparato é muito mais próxima da realidade do que qualquer princesa ou vilã da eterna novelinha global. A Menina Sem Qualidades fala da adolescência com tanto realismo que recebeu censura de 18 anos. Pelo que andei vendo, não vão faltar cenas envolvendo álcool, cigarro e sexo. Nada daqueles deliciosos sucos naturais que o pessoal de alguma temporada qualquer de Malhação tomava no Gigabite Café. Nada contra, mas sempre senti falta de algo que retratasse a vida da juventude de um jeito menos florido.

A protagonista, Ana, está longe de ser uma menina comum. Com uma inteligência fora do normal – já leu todos os livros de todas as bibliotecas por onde passou -, anda sempre com um soco inglês por perto, para qualquer emergência. Mas Ana está muito próxima de uma menina comum. Começa a descobrir e entender sua sexualidade e sofre bullying na escola. Gosto dessa dualidade, porque ela torna tudo muito mais real. Só a primeira meia hora da história já me deixou com vontade de ler o livro que deu origem à série.

É uma pena que a MTV esteja em crise. Esses lampejos de coragem e genialidade vão fazer falta quando o canal virar retransmissora de uma igreja qualquer.

E a Miss Bahia é negra

Você deve se lembrar da confusão que foi quando divulgaram as candidatas ao Miss Bahia. Entre todas as candidatas a mulher mais bela do estado com mais negros no Brasil, várias loiras e quase nenhuma negra. A reação na internet foi péssima. Pouquíssima gente entendeu como alguma daquelas mulheres poderia representar a beleza baiana. Ao falar sobre o assunto, lembrei que o caso não é isolado. Nenhuma das Miss Bahia que se tornaram Miss Brasil eram negras.

Passado todo o auê, no último sábado ocorreu o concurso e a vencedora foi Priscila Cidreira, uma negra linda de Salvador. Não sei quanto a decisão foi influenciada pelos protestos nas redes sociais. Mas olhando a galeria de fotos das candidatas, não conseguia imaginar outra decisão.

Parabéns, Priscila.