Daqueles pequenos grandes momentos

Ele, um daqueles loucos que larga o emprego para viajar pela Europa, quase que sem destino – em busca de um destino. Ela uma funcionária padrão – uma burocrata qualquer perdida nos corredores de uma empresa qualquer. Os dois, um casal sem passado e sem presente. Um casal provavelmente sem futuro – que, se houvesse, seria um daqueles horizontes sempre distantes, inalcançáveis. Quando se encontraram, foi a mais pura obra do acaso. Ele, em uma de suas viagens. Ela, no fim de um de seus expedientes sem fim. Por acaso ou por destino, pararam para fumar no mesmo lugar. Ela estava cansada, mas não resistiu quando cruzou seus olhos naqueles olhos tão negros, que mal podia ver na escuridão da noite. (Nunca tinha visto uns olhos tão escuros em toda sua vida.) Fingiu estar sem fogo e pediu por ajuda. Ele não entendeu. Não falava alemão, explicou em um inglês que ela demorou uns instantes para entender. Repetiu o pedido por um isqueiro, agora em inglês e ele finalmente pôde ver melhor o rosto dela, graças à chama que iluminou o espaço entre os dois. Gostou do que viu. Os olhos claros, entre o verde e o azul, a pele clara, o cabelo loiro. Não era o tipo de garota que geralmente o atraia, mas gostou do que viu.

A noite estava fria, como é de se imaginar quando se está num inverno naquele canto da Europa. Qualquer número positivo no termômetro seria uma decepção para ele. Ainda mais naquele momento, em que os menos alguma coisa eram o pretexto ideal para ficar mais próximo, mesmo que ainda fossem completos desconhecidos. Sentiu vontade de passar toda a noite com aquela garota. E esse sentimento, por mais que não fosse uma novidade, não era dos mais comuns para ele. Não naquele momento. Não naquela situação. Ao longo de suas andanças pela Europa, nos últimos três meses, não procurou por sexo em nenhum dos lugares por onde passou. Quando aconteceu, foi algo assim, um acontecimento ou uma bebedeira quaisquer. Houve uma belga em Paris, uma irlandesa em Barcelona e uma portuguesa em Roma. Naquele instante, relembrando as andanças no velho continente se deu conta de que só tinha transado nas cidades mostradas nos filmes europeus do Woody Allen – e nunca com uma nativa. Justo ele, que não entendia porque tanto endeusavam Woody Allen. Justo ele, que sempre se encantava com a beleza das mulheres locais, fossem quais fossem.

Naquele instante, relembrando suas aventuras no velho continente resolveu que iria quebrar essa regra imposta pelo acaso. Não iria transar em uma cidade de Woody Allen e, ao que tudo indicava, finalmente conheceria os prazeres de desfrutar de uma mulher em sua própria terra. Enquanto pensava em tudo isso, conversava quase despretensiosamente. Antes de qualquer movimento mais sério, preferiu confirmar suas impressões. Romper a tradição seria um sinal importante de que estava no caminho certo. Aquela viagem para a Europa tinha sido planejada para por rotinas a baixo, então não podia deixar que uma nova se criasse, mesmo que fosse por mera coincidência. Perguntou se Woody Allen já tinha filmado por ali. Ela riu, curiosa para saber como aquele velho judeu de Nova York conseguiria fazer um filme encantador em uma cidade que só tinha como encantos uma ou outra sede de empresas multinacionais – uma cidade mais fria que as temperaturas mostradas nos termômetros. Ele riu, fingindo achar aquele velho judeu de Nova York tão genial quanto ela parecia pensar.

Ela não entendia bem o que ele queria com aquela conversa toda. (Afinal, sem saber das últimas transas daquele maluco, seria impossível entender tanto interesse nos filmes europeus de Woody Allen, justo os mais chatos de todos.) Mas, mesmo sem entender, estava gostando do papo. Ou, talvez, mesmo sem entender, estivesse gostando do rapaz que conduzia o papo. Mesmo sem entender todo o inglês dele, conversavam como se tivessem sido alfabetizados na mesma língua. Mesmo sem entender aonde tudo aquilo ia dar, deixava as coisas rolarem.

Mais um pouco e ele perguntou se ela era nascida e criada em alguma daquelas ruas estreitas. Ela disse que vinha do outro lado da ponte, onde as ruas não eram tão estreitas, mas que era, sim, uma típica cidadã de lá. Parecia o sinal perfeito. E os sinais não se restringiam àquela bobagem de pôr abaixo aquela tradição de araque. Os dois tinham muito em comum. (Mesmo que isso não significasse quase nada.) Compartilhavam o desejo de conhecer todo o mundo. (Mas não há pessoa no planeta que não tenha esse sonho – ainda mais quando jovem.) Gostavam de comida japonesa. (Mas essa é outra espécie de obrigação do mundo globalizado.) Choravam pelos jovens mortos nas praças do Egito e da Ucrânia e tinham certo arrepio em pensar no poder onipresente dos Estados Unidos. (Como é de se esperar do espírito revolucionário de qualquer um que ainda não tenha feito 30.) Fingiam gostar de filmes e livros que nunca tinham visto e lido. (Tal qual todo ser humano faz no momento em que se sente interessado por uma outra pessoa.) E por ai seguiam, enumerando um tanto de gostos sobre os quais – fingiam não saber – era quase impossível de discordarem.

Para aquela noite fria. Para aquela conversa que começou graças a um pedido de mentirinha. Para aquela viagem maluca que ele fazia. Para aquele dia tão comum que ela vivia todos os dias. Para tudo isso, aquele momento era perfeito. Mas os dois estavam longe de serem perfeitos. Ele tinha medo de ofender a honra de uma moradora local. Não sabia quais eram os costumes da região e como seria interpretado se tentasse um movimento mais ousado. Ela tinha medo da fama de machistas dos homens brasileiros. Não sabia se ele ficaria ofendido se ela tentasse um movimento mais ousado.

Entre esses medos tão bobos, ficaram conversando por toda a noite. E poderiam passar muito mais tempo, não fosse o frio e a necessidade que ela tinha de voltar para casa antes do último bonde. Ela começou a olhar para o relógio e avisou quando faltavam dez minutos para a hora de partir. Ele caminhou com ela até o ponto em frente ao teatro. Ficaram por lá, conversando, pelos exatos dez minutos que ela disse que eles ainda tinham pela frente. Os últimos três foram de uma conversa muda, uma ausência de palavras entre quem ainda quer dizer alguma coisa, mas não sabe ao certo o que nem como.

Não estavam apaixonados. Ela não acreditava em amores a primeira vista. Ele não acreditava em amores. Não estavam apaixonados, mas havia alguma coisa entre eles. Ia além daquela conexão de obviedades, daquela vontade de agradar ao outro, da vontade mútua de transarem. Não era paixão, mas não era só tesão. Não era nada. Mas tinha potencial para ser aquilo tudo.

Quando o bonde chegou, ela entrou e acenou pela janela. Sabia que muito provavelmente nunca mais veria olhos tão pretos em toda sua vida. Talvez dentro de alguns dias ou semanas, no máximo, não se lembrasse do rosto daquele rapaz com quem havia passado as últimas horas conversando. Poderia não se lembrar da boca ou do nariz. Mas se lembraria, sem sombra de dúvidas, daqueles olhos. Ela não acreditava em amores a primeira vista, mas jamais se esqueceria do momento em que viu aqueles olhos.

Ele se lembraria dela, do rosto iluminado pelo isqueiro, da forma como ela segurava o cigarro e do jeito que ela ria nos momentos mais inesperados. Ficaria na cidade apenas durante a próxima manhã, mas prometeu para si mesmo que voltaria num futuro muito próximo. Era uma questão de honra reencontrar aquela garota de quem sequer sabia um e-mail ou telefone. Ele não acreditava em amores, mas não desistiria enquanto não tivesse certeza se ela era ou não a mulher escolhida para passar o resto de sua vida ao seu lado. Prometeu voltar. Mesmo sabendo que era uma daquelas promessas feitas só até o próximo pequeno amor.

 

A fórmula secreta da felicidade

31, dezembro, 2013 Gabriel Ferreira Sem comentários

Nunca fui um grande fã de finais de ano. Essa sensação de que tudo pode mudar de um minuto para o outro simplesmente porque alguém determinou que aquele era um momento de passagem me deixa tenso, por mais que eu saiba que tudo isso é uma grande bobagem. A obrigação de fazer um balanço de tudo o que vivi nos últimos doze meses e preparar planos incríveis para os próximos doze é muita pressão sobre meus ombros. É como se tivéssemos a necessidade de, nessa época, encontrar a fórmula secreta da felicidade. Mas mesmo assim não resisto e sempre resolvo fazer esses balanços, buscar esse caminho. Descubro o que poderia ter sido melhor, em que momentos acertei e em que pontos terei que me esforçar muito para que o próximo ano seja tão incrível quanto sempre sonho.

Eis que, ao fazer o tal balanço deste 2013, me dei conta de que tive um dos anos mais bacanas da minha vida. Não falo com o saudosismo ou o otimismo que costumam marcar essas épocas do ano, mas com o realismo de quem, realmente, não tem muito do que reclamar. Me lembro de, nos últimos dias de 2012, ter pedido que o próximo ano fosse mais tranquilo, sem tantos sobressaltos e motivos para me estressar. O ano que estava acabando não tinha sido nada fácil em diversos aspectos e tudo o que eu queria era inaugurar uma nova fase, em que eu me enxergasse e realizasse.

Foi basicamente isso o que aconteceu. No campo pessoal, troquei algumas reticências por pontos finais. Profissionalmente, sai de um emprego que não me satisfazia mais e me aventurei na vida de freelancer. Nada disso foi fácil. A sensação de frio na barriga foi uma constante. Apesar disso, sobrevivi. Mais do que isso – vivi. Tive aquela sensação que só alguém que já se sentiu livre na vida sabe explicar como é. Pude fazer coisas que me agradavam. Ter a plena impressão de que muitos sonhos poderiam sair do papel – e ver alguns deles ganhando forma. Encontrar amigos que eu não via há muito tempo. Ver filmes que há muito queria assistir. Enfim, pela primeira vez em tantos anos pude por em prática minha filosofia de que a vida e os desejos não precisam ser coisas tão opostas.

Este foi o ano em que me aprofundei no velho sonho de escrever ficção. Foi o ano em que resolvi tirar a poeira daquela antiga ideia de ser ator. Foi o ano em que me entreguei mais profundamente às pequenas coisas da vida. Pode ser – e é muito provável – que tudo isso que dei início em 2013 jamais me renda frutos financeiros. Mas não importa. Esses pequenos atos já me renderam frutos pessoais e sentimentais capazes de pagar qualquer buraco na conta corrente.

E agora, com 2014 batendo à porta, pela primeira vez não tenho medo do que o futuro pode me reservar. Este ano minha única resolução é não ter resoluções. Nada de prometer entrar para a academia ou de não deixar livros pela metade. No lugar disso, seguirei minha vida da forma mais livre possível. Tomando decisões apenas quando elas têm que ser tomadas. Deixando para sofrer apenas no momento em que isto for inevitável. Funcionou em 2013 – apesar de eu ainda ter tido algumas recaídas de ansiedade extrema, admito – e há de funcionar em 2014. E se não der certo, ainda terei 2015, 2016, 2017 e muitos outros anos para encontrar a fórmula secreta.

 

O beijo

Sentiu uma vontade louca de beijar aquela boca e, antes mesmo que notasse isso, já estava fazendo a mágica que torna desejo em realidade. Nunca tinha feito aquilo na vida. Não que fosse seu primeiro beijo. Mas era o primeiro daquele beijo. Aquele era um beijo diferente. Havia um sentimento diferente ali. Não era tesão, carinho ou amor. Já conhecia todos esses e em nada eles lembravam o que sentia agora. Talvez o leitor não consiga entender o que estou falando. É realmente difícil para quem nunca viveu essa sensação de que tudo encaixa com uma perfeição sem igual, de que não há nada no mundo além daquele beijo, de que aquele momento tão especial nunca vai se repetir – não daquele jeito. Não é que aquela pessoa seja perfeita, única ou especial. A perfeição é do momento, não das pessoas. Como naqueles fatos que acontecem uma vez a cada dois ou três séculos e que a próxima geração mal toma conhecimento sobre sua existência. Um cometa, o nascimento de um grande líder, a invenção de uma nova estética… Apenas quem está lá, naquele momento, sabe identificar que algo de muito especial está acontecendo – e que esse fato independe de tudo que não seja o cosmos, a força superior, Deus, ou qualquer outro nome que você prefira.

Aquele beijo era, definitivamente, um evento cósmico. Bocas que nunca antes tinham se encontrado, agora se encaixavam com perfeição, como se conhecessem em detalhes os detalhes uma da outra. Os dois, em uns tantos momentos, chegaram a perder o fôlego, mas fizeram questão de continuar. Não havia motivos para se interromperem. Era um beijo longo, longuíssimo, mas não daqueles beijos feios, que chegam a deixar quem está do lado constrangido. Era um beijo longo, longuíssimo, mas de uma espécie rara, que apenas revela aos demais que, ali, há um algo de diferente. Ninguém sentiu vontade de interromper o casal ou de sugerir que eles buscassem um quarto ou um motel. Não era um beijo pornográfico. Longe disso.

As mãos dela corriam pelas costas dele, como se procurassem por lá um conforto ainda maior. As mãos dele corriam pelos cabelos dela, como se segurar aqueles cachos fosse a única forma de manter a magia para sempre. De resto, os corpos estavam parados. O mundo todo se movendo ao redor dos dois e eles lá, sozinhos, únicos no mundo e em seus pensamentos. Sem família, trabalho ou contas para pagar. Sem comunismo ou capitalismo. Sem trânsito ou planos para as férias. Sem nada. Absolutamente nada.

Como se fossem dois monges budistas no auge da meditação, tinham a cabeça vazia. Agiam quase que totalmente por instinto e era isso que fazia aquele momento tão mágico. Não precisavam se preocupar em ser alguma coisa. Eram eles – e talvez fosse isso o que fazia daquele momento algo tão especial. Ou talvez não, já que nessa ideia há uma boa dose daquela psicologia barata que nos faz acreditar que nunca queremos ser o que somos de fato – ou algo assim. Na verdade, o que fazia daquele momento algo tão especial é que tudo estava certo para que aquele momento fosse algo tão especial.

Se conheciam há algum tempo, mas não podiam dizer que eram amigos. Não nutriam expectativas um com o outro. Nunca sonharam com aquele beijo. Não sabiam – e naquele momento era a última coisa que queriam saber – o que aconteceria no momento seguinte. E não tinham noção de nada disso naquele instante.

Talvez um poeta dissesse que eram um só corpo. Mas isso não passaria dessas bobagens que os poetas costumam dizer para encantar a gente e nos fazer sentir que nunca viveremos um amor verdadeiro. Eles não. Não eram um só corpo. Eram dois corpos entrosados, felizes de estarem um com o outro.

Ninguém sabe ao certo quanto tempo levou até que aquele beijo acabasse. Para quem olhasse de fora, foi tempo o suficiente para invejar. Para os dois, não houve medida de tempo. Beijaram pelo infinito e um pouco além. Todo o infinito é pouco quando nos encontramos no beijo de outra pessoa. Quando finalmente se soltaram, se olharam e riram. Riram com o mesmo entrosamento do beijo, mas foram perdendo a força até que pararam e se concentraram apenas na boca um do outro. Não conseguiam desviar os olhos dos lábios do outro. A ideia de repetir o feito era tentadora, mas dava medo. Jamais alcançariam aquele ponto de novo. Ela tomou a iniciativa – sempre são elas que tomam a iniciativa. Virou e foi ao bar pegar uma bebida. Quem sabe outra noite…

 

O que define um repórter?

Em meio a uma disputa fratricida entre a chamada mídia “tradicional” e a “pós-jornalística” Mídia Ninja, Eliane Brum resolveu mostrar de que lado está. Como era de se esperar, ela está do lado da boa reportagem, seja praticada por quem seja. Adoro às definições que ela dá a um bom repórter e a uma boa reportagem. Foi de uma dessas que surgiu o nome desse blog. Nesse texto, mais uma vez, ela explica o processo de construção de uma boa reportagem – que passa não só pela escuta, mas pelo esvaziamento de ideias e pretensões, um processo dificílimo e que só traz resultado com muito treino e esforço.

Não adianta me estender muito por aqui. Nada do que eu disser será capaz de dizer mais do que o texto de Eliane. Quem quiser, então, leia aqui.

O medo e a imaginação

Há algum tempo escrevi aqui sobre o valor e a importância do medo. Semanas atrás me deparei com um vídeo que, assim como o texto do Castello e a conferência do Mia Couto, me fez pensar no assunto. É uma apresentação do TED (sei que estou parecendo o louco do TED, mas é que as coisas lá são muito bacanas mesmo) da escritora Karen Thompson sobre as conexões entre medo e imaginação. Vale investir 11 minutinhos do seu dia nessa palestra, viu?

Como evitar que o mundo pare?

Tenho um sério problema de relacionamento com os carros. Não gosto de dirigir, não gosto do estrago que eles fazem no meio ambiente e não gosto do caos em que eles transformam as grandes cidades. Não bastasse os problemas coletivos que temos que lidar diariamente, como saúde, educação e moradia, as administrações públicas ainda se veem obrigadas a buscar soluções para uma questão que é muito mais individual do que da população como um todo.

Por diversos motivos, as cidades não comportam mais um grande número de carros. Não que eles sejam vilões absolutos, sem qualquer qualidade. O problema está em seu excesso. Não imagino e não defendo uma sociedade sem carros, mas sim uma cidade onde os métodos de transporte que atendam mais gente por vez sejam, de fato, priorizados.

Alternativas não faltam. Investir mais em metrô (desde que sem corrupção, é claro) e corredores de ônibus já se provou bastante eficiente. São Paulo mesmo tem vivido um intenso debate sobre essa questão. O problema é que ainda estamos muito contaminados por uma espécie de rivalidade entre os defensores do carro e dos ônibus.

Por mais importante que seja o transporte público, ele por si só não é a solução para todos os problemas. Em alguns momentos, o uso do carro é importante também. E nessa vertente, temos visto algumas iniciativas de empreendedores que têm contribuído para a melhoria da mobilidade urbana. Além dos aplicativos de táxi, que são um excelente incentivo para deixar o carro na garagem de vez em quando, vejo o compartilhamento de carros como uma excelente solução. A empreendedora americana Robin Chase é um grande símbolo desse caminho. Ela fundou a locadora por hora Zipcar (que inspirou a brasileira Zazcar) e depois aprofundou seu modelo, com a Buzzcar. Quem quiser conhecer um pouquinho mais sobre seu modelo de trabalho, essa palestra dela no TED é muito bacana.

Mas mais importante do que uma ou outra solução é encontrar uma forma de coordenar diversas iniciativas. O problema é muito grande para acreditarmos que haja, de fato, uma resposta única para ele. Quem chama a atenção para esse problema é uma figura improvável. Bill Ford é bisneto de Henry Ford e diretor-geral da empresa fundada por seu bisavô. Coloco meus dois pezinhos atrás quando o assunto são figuras de dentro de uma determinada indústria questionando os valores defendidos por essa mesma indústria. Apesar disso, assistindo a palestra dele no TED, feita em 2011, encontrei alguns aspectos muito bacanas. O ponto central é que o modelo vigente não se sustentará por muito tempo. Com mais e mais carros nas ruas de todo o mundo, não há obra viária que impeça um congestionamento em escala global. Há pouco tempo já vimos essa tendência mostrando a cara na China.

O resultado do crescimento em larga escala do número de carros, como muito bem lembrado por Ford, não é somente o inconveniente de perder algumas horas para ir para o trabalho ou voltar para casa. Isso vai acabar afetando a distribuição de produtos tão fundamentais quanto comida e remédios.

É lógico que desconfio e discordo de Ford em alguns aspectos fundamentais de sua fala. Para ele, por exemplo, a grande sacada será a criação de carros mais inteligentes, conectados a estradas e estacionamentos mais inteligentes. Não vejo por esse lado. Acredito muito mais na força das soluções coletivas, como o compartilhamento de carros e o transporte público, do que no investimento em tecnologia para criar carros mais espertos. Além de mais caro e de ser algo um tanto quanto “futurista”, acredito que esse sistema mais posterga do que resolve a situação. De qualquer forma, acho que as propostas do Bill Ford são importantes para o debate. O vídeo abaixo tem um resumo dessas ideias, feito por ele mesmo no TED em 2011.

P.S.: Depois que publiquei o post me deparei com a notícia de que o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, apontou o aumento da gasolina como uma boa forma de subsidiar o preço da passagem de ônibus. Taí algo que já venho falando há tempos. Além disso, defendo também o aumento do IPTU para estacionamentos e o pedágio urbano na região central. Carro só para quem precisa de fato.

Valeu, pai!

12, agosto, 2013 Gabriel Ferreira 1 comentário

Como sempre, tinha me planejado para escrever no fim de semana, mas acabei deixando de lado. Podia deixar passar e depois dizer que estava, na verdade, fazendo um protesto contra essas datas comerciais. Mas não seria verdade. Mais do que isso, seria uma injustiça. Não agradecer a meu pai pelo homem que ele é e, principalmente, pelo homem que ele fez eu me tornar, seria uma falta de respeito – e desrespeito ao pai é uma coisa que não admito.

Há quem diga que tínhamos que agradecer aos pais todos os dias. Já faço em pensamentos, acreditem. Mas nessas datas o bacana é podermos dizer para o mundo todo aquilo que sentimos em nosso interior – e que as vezes falta tempo, coragem ou oportunidade para externalizar.

Por isso, quero aqui deixar bem claro uma coisa: pai, você não é apenas um exemplo que quero seguir. Você não é apenas alguém que amo muito. Você não é apenas uma pessoa a quem devo todo o respeito. “Apenas” é uma palavra que, definitivamente, não cabe em você. Você é tudo isso e é muito mais. Você é o cara que me faz ter a certeza de que batalhar é a única forma correta de obter resultados. Você é o cara que faz com que eu me dedique a sonhar a grande, a querer ser alguém nessa vida. Você é o cara que me ensinou que a gente tem que nunca perder de vista o objetivo de ser o melhor em tudo o que faz. Você é o cara que me segurou sempre que achei que fosse cair – seja da bicicleta, seja do mundo. Resumindo: você é o cara e ponto.

Até para o que alguns dizem que são os meus defeitos foi você quem me moldou – ou será que eu seria palmeirense e falador se não fosse seu filho? Te agradeço até por isso.

Podemos discordar em muitas coisas, mas foi com você que aprendi o quanto é importante valorizar um bom debate, apresentar e defender um ponto de vista e, mais importante de tudo, ter sua própria opinião, mesmo quando ela é diferente da de todo mundo que está a seu redor.

Obrigado por tudo isso e por todas as outras coisas que não haveria tempo ou espaço para te agradecer. Você é o cara e eu quero um dia chegar lá também!

 

As pequenas frustrações cotidianas – ou a mão que nunca será dada

Outro dia me deparei com uma dessas cenas que só não passam despercebidas por um mero acaso. Estava no ônibus e vi um casal sentado no primeiro par de bancos logo depois da catraca. Deviam ter a minha idade ou até menos. A mão dela aberta sobre a perna dele, como que esperando em vão que ele a pegasse.

Não sei se eram amigos ou namorados, mas aquilo me fez viajar um pouco. Fiquei pensando no quanto ela queria que os dedos dele envolvessem os seus. Será que aquele era um ato e um desejo consciente ou nem ela havia reparado ainda naquilo que eu estava vendo? É difícil saber.

Todo mundo tem alguma expectativa que jamais será alcançada. O tamanho e a intensidade desses sonhos variam muito e às vezes nem podemos nos dar ao luxo de chamá-los de sonhos – de tão simples e inocentes, sequer reparamos nesses desejos e, por isso, não nos sabemos frustrados. Não reparar e não saber, porém, não diminui de maneira alguma o impacto que essas pequenas frustrações cotidianas têm em nossas vidas. Elas são capazes de moldar personalidades, de determinar futuros, de criar medos. E tudo isso no mais absoluto silêncio.

Você certamente tem suas frustrações escondidas. Carrega algo no peito que pesa sem que você saiba. Eu também tenho, mesmo que ainda não conheça exatamente quais são. Pode ser que a frustração da moça que vi no ônibus não seja o amor não correspondido, como eu logo imaginei. Mas ela certamente tem desejos tão simultaneamente próximos e distantes quanto me pareceu a mão de seu companheiro.

Mas qual é o verdadeiro valor dessas frustrações cotidianas e desconhecidas em nossas vidas? O que tem maior peso na formação da personalidade de alguém? A mão que nunca será dada ou o emprego perdido? As palavras que desistiram de existir instantes antes de chegar à garganta ou o fim de um namoro? O desencontro que se deu por apenas alguns segundos ou a saudade de quem já se foi?

É lógico que as grandes decepções e perdas nos levam a tomar grandes decisões. São momentos importantes, que muitas vezes marcam uma ou outra virada em nossas vidas. Mas elas não acontecem em tão grande quantidade para que sejam, por si só, determinantes de nossas personalidades. São os pequenos desencontros – esses sim abundantes – que ajudam a determinar quem realmente somos. Podemos até não reparar – e provavelmente não iremos –, mas são as mãos, os beijos e os abraços nunca dados, as palavras nunca ditas, os encontros nunca concretizados que nos levam a decidir como serão os próximos carinhos, beijo, abraços, palavras e encontros.

Ignorar quais são e o poder dessas pequenas frustrações não é um problema e nem um mal. Muito pelo contrário. É esse desconhecimento que as torna tão poderosas. Como quase tudo na vida, é ao estar livre do peso de sua responsabilidade que nossas frustrações cotidianas se sentem mais livres para agir. Mais do que isso, é por não sabermos do que elas são capazes que nós permitimos que elas ajam. Não saber de sua existência e poder é a melhor forma que temos de não nos boicotar.

O importante, então, é não deixar que essas pequenas frustrações cotidianas se tornem grandes problemas. Fazer com que elas ajam sozinhas, sem necessidade de nossa interferência e, principalmente, sem nos deixar paralisar por elas. Levar essas pequenas frustrações no piloto automático, para que possamos nos dedicar única e exclusivamente às grandes. Pode não ser a fórmula da felicidade – será mesmo que isso existe? Mas que é um bom começo, isso é…

O inconforme

De vez em quando tinha uma vontade louca de levantar e sair andando. A vontade vinha do nada e teimava em não passar. Era como se a alma fosse sair sozinha do corpo caso ele ficasse no mesmo lugar. Normalmente isso acontecia quando alguém de quem não gostava vinha puxar conversa. Era uma espécie de instinto de sobrevivência. Fugir era a melhor e a única opção para evitar ouvir bobagem. O problema era quando, apesar de toda a vontade, de toda a força que sua alma fazia, de toda a certeza de que não deveria continuar no lugar, restava apenas uma espécie de resignação. Tinha que permanecer sentado, fingindo ser um moço comportado e atencioso.

Nesses momentos engolia seco. Nesses momentos, que eram quase todos os momentos, reclamava para si mesmo de cada uma das convenções humanas. Não entendia qual o motivo que o obrigava a se fingir interessado pelo que não era. Sua alma, livre como todas as almas, queria perambular por ai. Ver coisas novas. Conhecer gente e lugares interessantes. Aprender. Viver. Ainda era muito cedo para que sua alma fosse condenada a um único lugar. Para ele, alma e corpo parados era sinal de morte. Ainda tinha tantos anos pela frente e mesmo assim era obrigado a estar lá, fingindo que aquelas conversas sem sentido e apelo eram a coisa mais cheia de senso e interessantes que já tinha ouvido.

Desde pequeno aprendeu que, por mais que fossem chatas e nos machucassem, as convenções humanas existiam para serem cumpridas. Sem elas, o mundo não seria mundo. Sem elas, ficaríamos perdidos entre uma barbárie e outra. Aprendeu, mas não se conformou. Não via problemas em um mundo sem regras. Não que se considerasse anarquista. Não tinha qualquer tendência política. Ser de esquerda ou de direita era uma das regras que fazia questão de não cumprir. Seus ideais giravam única e exclusivamente em torno da ideia de sua própria liberdade.  Os outros poderiam continuar suas vidas medíocres, seguindo suas regras medíocres, comendo suas comidas medíocres, ouvindo suas músicas medíocres, mantendo suas conversas medíocres. Fazendo tudo isso tranquilamente sentados, como se fosse natural à alma ficar ali sentada.

Era incapaz de entender como as pessoas não tinham aquele comichão de se levantar e sair andando a cada conversa mais chata. Por mais que não quisesse, no fundo queria entender o que se passava na cabeça delas e o que as fazia ser tão conformadas. Não sabia se queria ser igual, mas queria ao menos fingir melhor que se interessava pela conversa dos outros. No fundo, por mais que imaginasse o contrário de si mesmo, era um grande egoísta. Tentava prestar atenção no que os outros falavam, mesmo sabendo que todo o esforço seria em vão. Acenava com a cabeça em sinal afirmativo, seja lá qual fosse a besteira que estivessem dizendo. Era um truque tão primário quanto eficiente. Um simples aceno de cabeça tem a vantagem de não querer dizer nada, mas dar ao outro o conforto de estar sendo entendido.

Mas ele tinha certeza de que, mesmo com todos os artifícios, os outros sempre sabiam que ele não estava lá. Eram raras as vezes em que ele conseguia dar continuidade à conversa. Sem ouvir a pergunta, não conseguia apresentar uma resposta satisfatória. Na maioria das vezes tentava, mas a situação era sempre tão constrangedora que talvez fosse até mais educado caso ele simplesmente cumprisse seus desejos mais íntimos, se levantasse e deixasse cada uma das salas em que entrou. Assim, ao menos, deixaria clara a sua ausência.

Apesar de todo o inconformismo, porém, era um covarde e fazia questão de continuar ali. Não saberia lidar com os dedos apontados, com o zum zum zum maledicente, com os xingamentos mentais cada vez que encontrasse um de seus abandonados. Preferia a fama de distraído, de egocêntrico, de burro do que o de inconforme. No fundo, toda a sua revolta não era por não poder subverter cada uma das regras da humanidade. O que o deixava aflito era justamente não conseguir cumpri-las. Ou achar que não conseguiria. Queria ser como todos os seus amigos. Queria ser só mais um Homer Simpson, mais um mocinho qualquer de novela.

O que ele não sabia – e o que ninguém sabe sobre os outros – é que tudo isso era uma grande ilusão. Pelos mesmos ou por outros motivos, seus amigos também tinham vontade de libertar suas almas. Seus amigos também queriam entender como era possível alguém aceitar tudo aquilo. Seus amigos também queriam entender como ele conseguia se concentrar e participar de uma conversa por mais de dois minutos. Só reparamos em nossas inconformidades e por isso não somos capazes de notar que o mundo, na maior parte ou em todo o seu tempo, é um grande diálogo de surdos, mudos e cegos, incapazes de ver ou transmitir qualquer sinal que faça sentido ao outro.

No dia em que ele percebesse isso, não seria mais feliz ou mais triste do que já era. E por isso talvez, nem valesse a pena perceber. Se sentir especialmente inconforme talvez fosse sua grande vitória.

 

Obituários não devem absolver os pecados

Com certeza você já reparou: sempre que morre algum político ou celebridade, os obituários costumam destacar mais as contribuições daquela pessoa à sociedade do que seus eventuais defeitos. Não importa se o sujeito é o maior corrupto da história do país ou se era um daqueles artistas arrogantes que só se preocupam em destratar empregados e fãs. No final das contas, por mais que até toquem nas questões delicadas, os obituários sempre terminam com uma cara de absolvição de pecados.

Esse modelo sempre me incomodou. E muito. Nunca vi lógica em passar a mão na cabeça de quem sempre fizemos questão de bater. É um problema cultural, eu sei, mas não faz o menor sentido.

Outro dia me senti bastante aliviado ao me deparar com um obituário que seguiu o modelinho que, acredito, todos deveriam adotar – mesmo que não tão exagerado. O jornalista Hunter Thompson nunca foi um grande fã de Richard Nixon. Pelo contrário. Os dois representavam visões de mundo completamente antagônicas. Quando Nixon morreu, em 1994, Thompson foi escolhido pela Roling Stone para escrever o obituário do ex-presidente. O resultado é de uma sinceridade que chega a ser assustadora – bem a cara de Thompson, diga-se de passagem.

Logo de cara ele avisa a que veio:

Richard Nixon se foi e eu fico mais vazio por isso. Ele era uma coisa real – um monstro político saído de Grendel e um inimigo muito perigoso. Ele poderia apertar sua mão e te apunhalar pelas costas ao mesmo tempo. Ele mentiu para seus amigos e traiu a confiança de sua família. Nem mesmo Gerald Ford, o infeliz ex-presidente que perdoou Nixon e o manteve fora da prisão, ficou imune às suas diabólicas consequências. Ford, que acredita firmemente em Céu e Inferno, disse a mais de um de seus famosos companheiros de golfe: “Eu sei que eu vou para o inferno, porque eu perdoei Richard Nixon”.

Esse é apenas o primeiro parágrafo do texto, que vai ficando mais crítico a cada linha até chegar à conclusão de que Nixon será uma marca constante na vida de todos os americanos por muitos e muitos anos. Uma marca constante e negativa, que fique bem claro. Para quem quiser ler a versão completa, o site da The Atlantic (aquele mesmo site que não gosta de pagar o serviço de seus frilas, é bom lembrar) disponibilizou o texto.

Com Sarney internado na UTI, a leitura vem bem a calhar. Ainda outro dia, vi gente criticando um jornalista que lembrou de todo o mal causado pelo ex-presidente e sua turma aos povos do Maranhão e Amapá. Segundo os críticos, o momento é delicado para a família e não é bom ficar retomando esses “detalhes”. Será?